Fluxos

00:19

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O que me incomoda é essa falta de satisfação. Tipo Rolling Stones, sabe? Tá que é boa a questão da utopia, pra gente seguir em movimento. Mas quando a coisa é entre a gente, entre eu e você, fico pensando onde fica a satisfação. Quanto de mim não basta pra te fazer feliz? Devo me preocupar isso? Eu, particularmente, acho que não. E acho que é bem por isso que abro mão do que você chama de nós sem muitas dificuldades.

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- Como foi no início? Nossa, foi uma dor que nem sei te dizer direito. Mas... acho que ainda tá no início. Não? Sei lá, tem tempo pra essas coisas passarem?

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Às vezes, eu acho que eu vivo num descompasso entre corpo e alma. Como se o tempo passasse diferente pra cada...

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Esses dias você me disse que estava apaixonado, meio que insinuando que fosse por mim. Rio agora porque, lembrando, acho engraçado você ter falado como se fosse a primeira vez que tivesse dito aquilo pra mim, ou pra qualquer outro alguém; pior: como se fosse a primeira vez que eu tivesse escutado essas palavras. Ou, sei lá, como se fosse naturalmente alguma coisa boa. Dois dias antes, me mandaram esta exata mensagem: "Tô apaixonado". Não me cabe entrar nesses assuntos. Nunca vi muita necessidade nessas declarações. E, sim, sou uma romântica não-assumida, mas sou! Só que, veja bem, certas literalidades me esgotam, me entediam. Eu perco o tesão e, automaticamente, a paixão. Meio contraditório, eu sei. Mas é o que tem acontecido, pelo menos, nos últimos 15 anos. Teve essa vez, desse cara que me ligou na noite em que nos beijamos pela primeira vez. Primeira e última. O inocente, mal sabia, ligou para dizer que estava apaixonado. Teve esse, este, aquele outro. Acabo saindo como a megera da história, mas é difícil me fazer entender quando preciso competir com qualquer manto sagrado da paixão. É difícil competir com o ideal, com as expectativas. Mais irônico ainda é eu te dizer isso, sendo que há um ano estava eu apaixonadíssima - só não disse; não literalmente. E sentia ciúmes, sentia falta, queria abraço, beijo, consolo. É que costumo deixar o tempo dizer essas coisas que não precisam ser ditas. Por isso, querido, temo que meu fatídico destino se repita agora - e, creio, se repetirá. Então, antes de mais nada, antes de qualquer dor, antes de qualquer medo, preciso que saiba: te amo.

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Por muito tempo acreditei nessa coisa de que ninguém é uma ilha e, confesso, não sei nem de onde veio. Joguei no Google, tal de John Donne e a frase completa é: "Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo". Concordo com suas intenções, John, mas de resto discordo abertamente. Pra mim, que não sou ninguém importante, todo mundo é uma ilha e aí, juntos, somos um enorme arquipélago, sabe? Tentando conexões, dependendo da água que vem e vai - mas cada um com sua coisa; sua dor ininteligível. E essa coisa de a ilha ser completa em si mesma é meio absurdo se você pensar no ciclo da água, no Sol e no resto da galáxia, não? Ah, bom... É o que eu penso, John. Mas sou só eu, postando num blog qualquer. Você é quem é citado no Pensador.com, não se preocupe. Só queria que, se der, em algum lugar, onde estiver (e se estiver), pense sobre isso, porque eu ando pensando. Bastante.

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Eu nunca sei se as pessoas estão sendo mesmo sinceras. Tem aquela coisa do instinto, que eu - crente - confio piamente, mas que não é certeza de nada, né? É tipo uma fé. A gente meio que é obrigado a ter fé nas pessoas, a confiar no que estão nos dizendo. Engraçado que, agora, vejo em seus rostos a vontade de me peguntar qualquer coisa, dizer qualquer palavra de consolo e eu mesma acho graça disso. Que bobagem! Mas, por fim, acho que entendem e veem em meu rosto quando digo que palavras não me consolam. Só o amor me consola.

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O silêncio absoluto existe de fato? Quer dizer, se a coisa toda é uma só, há de haver qualquer grito escondido enquanto a gente cala do lado cá. Silêncio bom é silêncio nosso, de alma. Esse silêncio outro, de fora pra dentro, chega a ser engraçado. A gente se pega tentando achar explicação pra tudo quanto é ruído. Pelo menos, eu o faço aqui na cidade. Tem sempre um motor ligado, um pneu freando, um grito de socorro ou de prazer. Tem sempre qualquer coisa acontecendo e se o nosso relógio não freia, tal qual - quase sempre - desesperado o pneu notívago, que fazer? A gente fica meio anestesiado, né... Taí. Por isso que eu digo que, ainda que o silêncio absoluto seja um mito, o silêncio da alma é o que me fez escapar diversas vezes da loucura sem propósito, aquela que deixa a gente meio robótico. Sei lá, ela é tipo meu pior pesadelo. E aí quando vem qualquer sintoma dela, sempre latente, saio de cena por uns minutos, por uns dias, por uns meses. Ah, nem penso bem o tempo. Só saio. Um pouquinho. Sabe? Ou não sabe?

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Fiquei feliz de te ver na semana passada e ter me sentido tão amada assim. É só um pouco triste, e me perdoe o egoísmo, a sua ausência. Mas tudo bem. Tudo bem...

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Ando meio solitária nessa cidade-nuvem. Talvez, as pessoas venham pra cá pra isso. Mas e quem nasce aqui? Não sei. Tudo aqui é meio nublado, sempre ameaçando chover. Inclusive, e acho que principalmente, as pessoas. Andei sentindo falta do sol e do mar e a oração de ontem foi só um desabafo sobre a falta que o litoral me faz. Hoje, fez um Sol quase inacreditável.

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É de se admirar que um céu pintado de pôr-do-Sol, um mar risonho a me cumprimentar e uma lenta brisa tenham o poder de curar, enquanto os pés se afundam na areia feito criança em abraço de mãe.

11

Sinto-me cada dia mais certa sobre a sincronicidade da vida.

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Tenho pensado muito na coisa da autossabotagem. Percebi que faço isso o tempo todo. Com mais frequência do que imaginava, inclusive. Lembro que ainda criança deixei de convidar um dos meninos da turma para o meu aniversário porque havia descoberto sua paixão por mim. Quem foi que me ensinou a ser assim? É engraçado. A gente pula de pedra, bebe até perder a consciência, anda na cidade durante a madrugada, transa no primeiro encontro, mas basta que o abismo da paixão nos encare para que a criança amedrontada dentro de nós se manifeste. Por que tanta esquiva dos perigos de se apaixonar se, no fim, vamos sofrer de alguma e qualquer maneira?

02:08

se eu pudesse, talvez fosse outro
e se me dissesse, talvez não amasse
e não amando, te esqueceria
e esquecendo, te magoaria
e magoando, te acabaria
em mim
talvez sendo assim
trocando o dito pelo não dito
num mar de histórias não vividas
promessas não feitas
e beijos não dados
talvez seja menos doloroso
que um amor amado
agonizando entre espinhos
de dores mal resolvidas
pretextos nunca explicados
erros não perdoados
e medos jamais confessados

22:52

há de ter um jeito
a qualquer momento
alguma hora
em qualquer pressa
há de haver
como disse caê
qualquer transa

talvez não agora
nem amanhã
nem depois de amanhã
ou depois

mas há de vir
um tempo no meio do tempo
ou algum meio-tempo
em qualquer contratempo
que faça o seu beijo
encontrar com o meu

de novo

aqueles versos pra você

22:13

é que você me olhou, pretin
nem sei como dizer, só sei que foi assim
cê deu tempo pros meus medos
horas pra minha pressa
beijos nos meus dedos
calma pra minha festa

não que eu quisesse, né?
mas cê chegou aqui
tipo aquele xote que um dia escrevi
foi tipo devagarzim
no cangote, um cheirim
pra ficar de chameguim
tipo coringa e seu pudim

mas aí, já era, rapaz
entrou no meu coração
mexeu com a minha paz
me tirou da condução
deixou pedindo mais
fiquei meio sem noção
com medo de ser demais

e agora eu tô aqui
doutro lado do mundo
pensando se fico sussa
ou quem sabe piso fundo

sei lá

[deixa ser
o tempo vai dizer
se vou ficar ou não
(mas se quiser...)
segura a minha mão]

01:20

foi sobre aquele dia. aliás, é. eu tava pensado em te ligar e te contar que fiquei bêbada. em casa. sozinha. tudo bem se fosse o que eu quisesse, você sabe, né? me conhece. mas eu queria outro alguém. sei lá, minha mãe, aquele menino que eu achava que estava amando ou talvez você. a gente não se vê há tanto tempo e eu vivo dizendo que superei isso. mas. não sei. nunca sei. você marcou a minha vida. hahaha lembrei de tim maia. mas é sério. lembro de você com tanta coisa que vejo. tipo aquele filme. lembrei daquele filme que acho que você nunca viu. é um filme meio subcategoria. hahaha. não imagino você assistindo ele. mas lembro de você com ele e fui procurar alguns "quotes". sabe que isso? sabe, né. algumas cenas, citações, falas... achei uma que me lembrou de você. como sempre me lembrou de você. e eu tô bêbada ou quase lá, então acho que deveria mesmo ter lembrado. é simples. a moça disse: "eu te amo. muito. eu só não gosto mais de você". meu deus. é isso. exatamente isso.

eu te amo tanto. e você também me ama tanto. você tá em são paulo. eu, em curitiba. você pensa em doutorado, eu, em mestrado. mas sabe... te amo. só... sei lá. chega, né? chega de lembrar de você em tudo. eu preciso de lembrar de outra pessoa. por mais que eu te ame, preciso de chorar ou sorrir por outra pessoa. até porque.. você já o faz.

...

de qualquer forma: saudade,

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.