Palavra é útero de toda gente

10:53

as palavras me vêm
como nascentes
brotam únicas
com a certeza de que há um rio
que as traz até mim

me deleito no engano
engrandeço a ideia da autoria
penso que as palavras são minhas
mas sei

não sou eu quem lhes dou vida
olho pra dentro e percebo
eu não nasci quando nasci
a palavra é que me pariu

16:26

Eu, como muitas das escritoras que pessoalmente conheço, quero urgentemente escrever sobre o que vejo. Escrever sobre o que sinto, sobre o que imagino que poderia ser. Sobre as coisas que me interpelam e as que, inocente, acredito inventar. Sobre as repetições, também. Sobre os desacatos, os casos, as frustrações. Sobre o medo. Este em especial. Quero escrever como se toda minha existência dependesse disso. Mesmo quando me desloco, crio universos, personagens, mundos inteiros, é na tentativa de colocar o que vejo em palavras, em metáforas, em imagens. Sobretudo, o que mais me encanta neste jogo, que me é quase inevitável, é a maneira como as nossas palavras ecoam. Mais encantador ainda é observar o efeito dessas palavras em outras pessoas, em pessoas completamente diferentes, que veem, sentem, imaginam coisas diferentes; mas que, de alguma maneira muito curiosa e delicada, acabam se conectando com essas palavras. É como uma ironia. Somos são complexos, cada um com seus trejeitos e manias (é certo que alguns são mais parecidos entre si do que outros), mas de alguma maneira algo quase que exterior a nós nos motiva a encontrar no que o outro sente ou vê qualquer coisa em comum. 

Não é sempre, mas há momentos em que a existência se mostra a mim como algo a se admirar.

eu sou o caminho

18:39

e disse-me:
“quando se nasce
nasce-se para caminhar
tudo em que se pisa é meio
estrada que desemboca em lugar nenhum
o caminhar é, então, o matar das horas
dos minutos, dos segundos
até que não exista tempo para contar
até que não haja caminho
e nossas vozes se calem enfim
por isso, não temas, minha querida
a morte em si
é só mais um passo”

A mulher da Rua 7

18:38

Tinha certo descontrole no entrelaçar das pernas. A mão trêmula insistia em levar o copo à boca. Tinha certo descompasso, também. Era notório. Na ânsia de favorecer a intuição, tentava fazer com que nada escapasse do olhar, mas por isso mesmo as coisas lhe escapavam, como se fugissem dela, como se fosse melhor não saber. E, bom, talvez fosse mesmo. Dizia, raivosa, com o cigarro entre os dedos: "Se essa rua fosse minha" - dava uma pausa para que se fizesse o mistério - "Nada faria, nem se quisesse". Deixaria, dizia, que os outros fizessem. Que pintassem, que corressem, que deixassem como está. "Mas deus não dá asas às cobras, não é?". E punha-se a rir de quase cair do alto de sua cadeira de plástico. "Especialmente às que são como eu, com esse batom, esse sorriso e essa coisa entre as pernas". Mais um gole gelado e ia embora de repente, assim como veio. E pior: sem deixar um tostão pra conta.

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.