16:28

Eu quero ser o pássaro que volta e meia vai te dizer que vai ficar tudo bem. Mas nem sempre. Na maioria das vezes, eu vou te irritar. Vou ser aquele belo canto que você não aguenta mais ouvir. A doce melodia dos animais que contrasta com a poeira que vem da rua, da cozinha, das grandes fábricas perto da praia. Vou te irritar porque é bonito o que digo, mas não parece nada com o que você vê ao seu redor. Vou querer te fazer feliz, enquanto você vai implorar pela solidão. Mas estarei ali, assobiando canções de esperança, meio que pra ser do contra. Se você fosse o pássaro, eu mesma me faria corvo. Gosto de ser assim, oposto. Só assim pra transformar aquela noite louca que tivemos em prosa. Caso contrário, seria só mais um dia comum, sem nada muito extravagante pra fazer com que a minha péssima memória me lembrasse. E sei, também, que quando eu estiver corvo, você vai ser passarinho. Porque se não for assim, não será. É como se tivéssemos selado esse contrato no primeiro momento em que nos vimos. E isso não é tóxico, pelo contrário. É só a gente tentando fazer aquele movimento de soma, sabe? De apresentar alternativas aos desejos próprios, e alheios. Não fosse isso, o caminho seria sempre uma linha reta, do qual já saberíamos o fim sem perguntar. Pra nós, quem vive assim se engana. É uma grande farsa. Por isso a gente entorta a linha, vira curva. Por isso a gente se alterna entre passarinho e corvo. Pra poder, vez ou outra, se sentir vivo.

23:16

eu vi algumas coisas. eu vejo mais coisas quando sonho. infelizmente pouco me lembro. sei pouco sobre o que supostamente sei e menos do que deveria saber. é que me atento aos detalhes. depois esqueço de ver o resto.

li a palavra que me formou. uma palavra me criou e existo por ela. por conta dela e em dívida a ela. por coincidência palavra é feminino - isso se fosse possível falar em coincidência. mas no léxico, lá está a danada da coincidência. bonitinha, a bicha.

chamo as coisas pelos nomes que disseram que elas têm. mas vejo que parece abominável que se criem outras palavras. ou se riem da criança que mal sabe seu lugar no mundo. ou se riem de quem se desatentou às aulas de português. fora isso é poesia. eu escrevia despois porque a babá falava assim. eu achava que estava certo. e não estava? digo, por que não?

então vi que era abominável que se criassem outras palavras. "tá pensando que é deus?", eles nos dizem ainda hoje. eu rio pois somos sim. mas no feminino.

querem que o foi criado há milênios permaneça. eu acho engraçado. porque nada obedece ao que se quer. antes aceitássemos esse movimento eterno da palavra tanto quanto se aceita o eterno balançar do átomo. queria que o princípio da incerteza se aplicasse a tudo. mas o que seria de todas as gramáticas, né? o que seria do futuro dessas palavras que escrevo aqui?

por outro lado, daqui de onde vejo tudo se move, mas tudo se move de um jeito tão parecido... como se fosse a reação mais provável e única que se poderia haver. como se não houvesse outro jeito. a história tem disso, não tem? parece que os livros me dizem que não haveria de ser de outro jeito, porque, veja bem, já foi assim e é só assim que poderia ter sido. hm. e o que é que foi, afinal?

como diz o pequeno que me acompanha a vida: nunca saberemos.

01:03

deixe-se um pouco
e não se apegue tanto
ao que pensa de si

ainda que eu diga
- que belos olhos!
não se equivoque a ponto
de pensar que vejo
nessa amostra de corpo
coisa como o sagrado

é que o pouco me é belo
e, sorrateiro, se torna muito
justamente por ser pouco
mas quando se pensa muito
- o próprio pouco -
desafia a beleza que lhe habita
- a partir de mim -

e ela, então, goteja
esvai-se
como cachaça
num cantil mal fechado

quase não se nota seu fim
e vez ou outra
lindamente, cai

23:11

Qual o sentido de permanecer, então? O estar pode ser tanto... Quando penso no que há - sim, há - além do tempo e das coisas em si sinto que o permanecer é muito mais. Por que permanecemos? É o que tenho me perguntado. Se somos assim tão livres quanto imaginamos, por que estamos constantemente voltando? Não há nada de mal em querer voltar, penso. Mal pode haver, talvez, na coisa para a qual se volta, mas quem sou eu pra falar nesses termos...

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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