quando o silêncio me cala

00:47

procurei em vão um poema
que pudesse me dizer o que sinto
não ouso, contudo, escrevê-lo
pois o que me rói as entranhas
habita o lugar do indizível
sei do poder materno das palavras
observo, porém, meu silêncio
aflita

ainda que eu não diga nada
ou monte frases como essas
ainda que esqueça a fala
e jogue ao vento meu reticente vazio
ainda que o único som seja esse
que ouço agora neste instante
de carros e motos impacientes...

ainda assim
algo me roeria as entranhas
sem que eu pudesse dizer por que

feitiço

15:34

eu bem sei que esse seu papo é furado
coisa velha escondida no armário
e qu'esse seu coração é vagabundo
moribundo, meio estragado
resultado de um cupim isolado
que mordeu o seu amor bem devagar
mas enquanto cê tá indo com a farinha
eu já tô com o bolo todo preparado
pronta pra te servir numa tarde dessas
com um punhado de café coado
quando cê resolver por aqui chegar

Temperança

15:30

Meu corpo de água me leva frequentemente a me derramar, feito queda d'água mesmo. Cachoeira furiosa que rege em majestade o curso das águas que lhe interpelam. Mas ela veio e me disse na leveza de uma brisa primaveril: temperança. Disse como um conselho terroso pra um coração exarcado. A vida me exige sobriedade, num tom quase diplomata de ser. Para que eu não diga tudo o que me ponho a dizer e tudo o que tenho dito. A vida me exige equilíbrio para que façam sentido minhas frustrações futuras, como se me levasse a acreditar num karma que nem sempre funciona. A vida pede que eu me dê menos, me coloque menos, me doe menos, me entregue menos e, se possível, fale menos sobre todo esse afeto que me transborda e que, facilmente, derramo sobre quem passa pelo meu caminho. Tudo isso para fazer com que eu sinta apenas o sofrimento que lhe é intrínseco e não mais do que isso. Ora, entrei numa espécie de desafio com a vida para lhe dizer que não me arrependo dos meus exageros, nem vejo suas dores como ameaça. Meu corpo-água me levou aos lugares mais sombrios que já estive, é verdade, mas foi ele também que me fez sentir as emoções mais elevadas que já pude conhecer. Digo isso numa tentativa rebelde de me compreender e compreender esse seu conselho, vida. Não sei ser menos do que sou, mas talvez deva esperar um pouco para ser ainda mais.

Palavra é útero de toda gente

10:53

as palavras me vêm
como nascentes
brotam únicas
com a certeza de que há um rio
que as traz até mim

me deleito no engano
engrandeço a ideia da autoria
penso que as palavras são minhas
mas sei

não sou eu quem lhes dou vida
olho pra dentro e percebo
eu não nasci quando nasci
a palavra é que me pariu

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.