ressaca antes da morte

02:50

tentei antes que me fosse tirada a chance
e os dias soassem feito buzina de trem
que na madrugada grita longe
quase que em outra dimensão
também disse qualquer coisa
antes que a fala me engasgasse feito vômito represado
feito faringite brava que não vai embora
nem com amoxilina, mel ou gengibre
ainda pensei em gritar
mas só pensei mesmo
pensei por pensar
antes que tudo começasse a se desfazer
num branco tão alvo que nada mais parecesse existir
e o gozo, deixei vir...
antes que a carne das coxas endurecessem
e, roxa, travasse o pior dos meus instintos
e me deixasse a sós comigo
sem que eu pudesse vagar assim, feito alma penada
carregada dessas dores todas que a gente tem
e guarda sempre que precisa dizer
principalmente depois de beber algumas doses de cachaça
...

poema

poética

04:39

mas que ética há nos versos?
ah, que me venham assim
abruptos mesmo, rudes
sem receio, nem ressentimento
vá! pra que pensar a hora?
quando quer, não vem
então tem que ser assim
com estrofes mal educadas
e sí labas des governadas

mas poema precisa de ética?
dizer por favor e obrigada?
desde quando?
poema tem que chegar chegando
dando chute em porta velha
gritando um foda-se bem dado
e os caralhos que nos acompanhem

da minha embriaguez

02:07

você me pede que te fale sóbria
quando o sentimento já está embriagado
destilado nessas lembranças que guardo
como efeito colateral da memória
nem mesmo as doses pequenas de sanidade
estão isentas de ebriedade
o negócio é pileque, sabe? tem que ser
pra poder aguentar o tranco aí do amanhã
mas o que você não entende
é que a gente não fica bêbado só de cachaça
cerveja, champanhe ou catuaba
tem muita coisa que não cabe no copo
muita coisa que extrapola a garrafa
e que tá aí...ta aí, meu amigo
em tudo

maternidade

00:16

no princípio, havia um som
você me fez uma canção
e ela tinha ritmo, disso eu sei
harmonia, compasso, melodia
poderia dizer que era bela a sua voz
que cantava alegre, dia sim, dia não
poderia dizer, mas não digo
e não digo, pois não lembro
perdi as palavras no tempo
o acorde vago cegou os meus dias
ou vagou cego nos meus dias
acho que deixei a meada perder o fio
e preciso admitir que não sei bem
as estrofes, as pausas, o refrão
de tudo, de tudo, espero que perdoe
porque, afinal, lembro que havia uma canção
fecho os olhos e posso sentir o som
quando me encolho bem antes de dormir
com meias nos pés quando esfria
mas a letra, droga, a letra,
o toque, o tempo...
esses eu já perdi.

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

Conheça meus livros!

Saiba mais clicando aqui.