01:32

não sei quando
nem se é possível datar
mas ainda assim pergunto:
há de chegar o dia
em que o teu planalto
vai encontrar o meu mar?

23:27

como é lindo teu sol nascente
como é linda tua neblina
teu tempo, teu jeito, teu clima
queria que soubesses
como é lindo te ver, menina!

decálogo

02:56

quando me vires
irás me amar de imediato
mas, nesta exata hora, peço,
terás de me odiar
terás de me odiar por completo
assim que te sentires seduzido
deverás cuspir em meu rosto,
preparar tua melhor cara de desgosto
e dizer-me palavras obscenas
parando apenas, volta e meia,
para me observar a lágrima cínica que cai
logo que sentires o desejo de declarar-te a mim
deverás me esquecer e ignorar meus olhares
terás de me amar menos - ou até quase nada
assim, se tiveres sorte, começarei com calma a te amar

23:48

O silêncio absoluto existe de fato? Quer dizer, se a coisa toda é uma só, há de haver qualquer grito escondido enquanto a gente cala do lado cá. Silêncio bom é silêncio nosso, de alma. Esse silêncio outro, de fora pra dentro, chega a ser engraçado. A gente se pega tentando achar explicação pra tudo quanto é ruído. Pelo menos, eu o faço aqui na cidade. Tem sempre um motor ligado, um pneu freando, um grito de socorro ou de prazer. Tem sempre qualquer coisa acontecendo e se o nosso relógio não freia, tal qual - quase sempre - desesperado o pneu notívago, que fazer? A gente fica meio anestesiado, né... Taí. Por isso que eu digo que, ainda que o silêncio absoluto seja um mito, o silêncio da alma é o que me fez escapar diversas vezes da loucura sem propósito, aquela que deixa a gente meio robótico. Sei lá, ela é tipo meu pior pesadelo. E aí quando vem qualquer sintoma dela, sempre latente, saio de cena por uns minutos, por uns dias, por uns meses. Ah, nem penso bem o tempo. Só saio. Um pouquinho. Sabe? Ou não sabe?

00:03

talvez tenha me visto assim
como cura para qualquer ferida
como esperança para qualquer dor
como tempo para qualquer pressa
como sombra para qualquer sol


mas sinto ter que dizer
ou então, desapontar
sinto ter que avisar
que o que viu era miragem
plano, desejo, ideia
sonho, imagem, quimera

o que viu
naquele outro dia
a chorar feito pássaro perdido
era outra coisa
mas não eu


01:30

"Amor", foi como me chamaste. Mas queria que chamasses "Alice", nome que tenho e que divido com a cantora que ouvimos, antes, quietos. A também chamada rainha dos raios. Queria que me chamasses de "Alice", mas ainda sorriria se chamasses assim: "Rainha dos Raios". Agradaria-me a referência, o afeto, a ironia. Mas não. Chamaste-me "amor". Sempre que o fazes tenho vontades e uma delas é perguntar, num tom calmo, simples, afetuoso e sereno: quem é que sou para que seja o amor? E, depois, talvez num tom levemente mais raivoso: quem é que és para saber o que ou quem é o amor? E que, pior, saiba-o sendo eu? Por que eu, querido? Ah! É, bom, enfim... Apesar disso, queria que notasses que doi em mim ter que dizer o nosso fim, mas, sei - e resigno-me agora que vejo que me olhas apaixonado - nunca notarás.

20:03

difícil chorar
com a alma já entorpecida
com os joelhos anestesiados de tanta reza

e o vento passa sem arrepio
e o sol aquece sem uma gota de suor

difícil chorar
com a garganta atolada de medo
com o coração quase sem pulso

e o corpo...
ah, o corpo
coberto de lama, poeira
metal e caos

e se chora
como saber o custo
da lágrima sofrida
desamparada
e quase esquecida?

quem é que paga, enfim, o preço
pelo desenvolvimento
da civilização ocidental?

03:48

finjo saber que sou muito
e engano o espelho
com certa maquiagem
finjo dizer que sei tanto
pra espantar o choro
de um coração selvagem
que chora penoso e sem gosto
ao ver minha dor tristonha
e larga ao chão
a breve alegria
da vida rica
da vida branca
da vida em cifrão

03:38

a ausência para
ela mesma para
dando espaço ao 'nós'
depois vem e me para
para tudo o que tem em mim
a ausência vem e se instala
e fica
e arde (vez ou outra)
mas fica

vem e diz
diz um bocado
o que quero e o que não quero
ouvir

vem, então, (depois) o caos
o caos ordenado
tipo um eco dela [da ausência]
vem e desordena
desse jeitinho orquestrado
e me lembra
sempre e toda vez
com todos os parênteses
e vírgulas fora de hora
que sou só
e simplesmente

repetição.

03:29

o silêncio diz tanto
mesmo quando a dor cala
o maior dos espantos







17:22

me veio de aconchego
carinho no cabelo
segredos rente ao peito

no ouvido, falácias
mentiras registradas
carimbadas e autenticadas
quase reais

um cheiro no pescoço
pra dizer te amo
abraço meio de lado
tipo que não quer mais

antes fosse tanto
antes fosse muito
mas é tão pouco
antes fosse quente
antes fosse brasa
mas é tão morno
tão morno...

Equalize

00:28

Coisa estranha essa de gostar de alguém. Estranho, porque não é ruim, nem bom. Quer dizer, é tudo ao mesmo tempo. Aliás, a gente mal sabe se tá mesmo "gostando de alguém" até se pegar pensando nesse alguém enquanto escova os dentes. O pensamento flutua entre o sonho da noite anterior e a lista mental de compras do mercado. Sutilmente anexado ao seu dia a dia.

Talvez as paixões durassem mais antigamente, como dizia vovó, porque as pessoas esperavam menos. E, também, se viam menos, se falavam menos. Não tinha aquela mensagem não respondida no whatsapp, nem aquela troca de curtidas no facebook. Nem a urgência de compartilhar alguma foto no instagram. Que drama inútil esse o nosso.

E o pior é que se esse alguém some por uma semana você pensa que é hora de seguir em frente sem o alguém. Fico pensando nas cartas de amor e o quanto elas demoravam para sair do amante e chegar ao amado. E quando digo que antigamente esperavam menos, não digo menos tempo, mas menos coisas. A gente hoje espera respostas no whatsapp, retorno de ligações não atendidas, curtidas no facebook, recados no messenger, fotos no instagram, convites pra sair, boa noites, bom dias, smiles, saudades, fotografia, textos. A gente quer muito o tempo todo, sabe? Por quê?

Será que dá pra construir um amor sem esperar tanto? Quem permaneceria? E, se permanece, é correspondido? A correspondência, a reciprocidade, a troca, a permanência. Uma combinação difícil. Parece um daqueles jogos de cassinos em que as imagens devem combinar. Quanto mais combinações, mais se ganha. É, acho que é uma boa metáfora.

Abro um livro e tento não pensar em você. Mas só de tentar já penso, então meio que desisto e venho escrever esse texto pra ver se você não vai embora por um tempo. Só um tempinho. Um segundo pra ficar aqui sem ter que lembrar da gente com toda música. E é aí que começa a tocar equalize da pitty...

jessé

18:09

era aniversário da Maria. Maria, que também não é daqui, que também tava longe dos amigos e da família, que também vivia se questionando coisas, não sabia o que fazer em seu aniversário. e parece tão simples, né? só sair de casa. e, no fim das contas, foi o que fizemos. fomos num eventinho de rua, depois numa lanchonete, daí rolou uma batida policial chata pra cacete e todo mundo ficou meio estressado. depois a galera fumou maconha numa rua atras de onde os pms estavam. que ironia, né? aí, enfim, fomos pro largo da ordem e eu fiquei muito bêbada. de repente, jessé. jessé queria vender suas mandalas para pagar sua estadia no hotel e disse que a gente paga o que puder ou quiser. eu dei dois reais. e maria ganhou uma porque, como eu disse, era seu aniversário.

e aí jessé resolveu ficar. maria disse que o nome dele era bíblico e não consegui me lembrar de quem se chamava jessé na história bíblica, mas tive a impressão de que ela estava certa. ofereci cerveja e ele disse que não queria, porque tava com dor de garganta e tomando uns remédios. aí eu disse que também tinha uns remédios na bolsa e mostrei todos. dorflex, dramin, loratadina, neosaldina e ibuprofeno. soou meio estranho na hora, mas, ah vai, são remédios necessários pra viver!

não sei como foi exatamente, mas sei que maria tinha ido ao banheiro e quando ela voltou pra mesa eu chorava. chorava como eu gosto de chorar, intensamente e sem parar. chorava, porque a dor da saudade não se conteve dentro de mim. e o álcool me ajudou a colocá-la pra fora.

me senti bem, porque pra jessé o meu choro parecia a coisa mais natural do mundo. e, me lembrei, realmente é! ele não fez cara de pena ou de que me achava esquisita. só ouviu e me falou sobre a saudade que sentia também.

não peguei o facebook do jessé, ou whatsapp, se é que ele tem, se é que jessé existe mesmo. só sei que aquela atitude de compreensão e tolerância que jessé teve, tão naturalmente, vai ficar guardada no meu coração pra sempre.

02:07

a noite veio e cortou meus cabelos
e me lembrou do futuro
fez com que eu encarasse meu outro eu
num espelho que refletia o passado
os fios pelo chão
(de quem?)
os fios grudados na pele
(são meus?)
os fios de um cabelo
antes cachos cor de cobre
não eram mais meus
agora jaziam grisalhos na pia
na pia de um prédio antigo
com um espelho antigo
com um barulho antigo
que também não eram meus

14:04

se um coração é do tamanho de um punho
qual a força que tem
dois corações batendo juntos?

Bom leitor

21:57

Quando vi você chegar, entrei em um minicolapso interno, meio que fazendo algum cálculo misterioso que pudesse me ajudar a transpor a barreira entre mim e você. Quero dizer, eu era só uma garota fudida que queria fazer um ménage com seu melhor amigo e a namorada dele. Tinha mesmo alguma maneira de impressionar? Por que é tão difícil resistir a essa onda avassaladora que chamamos de desejo? Falei bobagens, besteiras. Inúmeras. Nem lembro direito, na verdade. Ainda sentia efeitos do minicolapso, dos cálculos sem fundamentos e etc. Até que, de repente, você me olhou. Você me olhou de verdade. Eu, ali, crua. Eu, agarrada como uma criança perdida aos meus medos. Eu, alimentando meus próprios desejos como se fosse um bichinho de estimação. Eu, sorrindo e meio tristonha no olhar. Você me olhou. Você me despiu. Não aquela coisa de sempre. Você me olhou como se tocasse no meu braço - eu, uma criança perdida, longe de casa, quase dizendo cadê minha mãe - e meio que disse que estava tudo bem, meio que disse que eu tinha acabado de encontrar um pedaço de lar. Por que você me olhou daquele jeito? Como você consegue fazer isso, aliás? Droga! Acho que se você tivesse notado meu grau de sensibilidade não teria feito isso. Ou melhor. Droga! Mil vezes droga! Você notou! Você fez o "bom leitor", dum poema que escrevi uma vez. Você me abriu, me leu, me traduziu. Mas que merda. Eu sou uma fábula óbvia, né? E deve ser por isso que foi tão rápido. Se bem que, dos que tentaram me ler, poucos conseguiram traduzir. Talvez seja isso. Talvez, a vida vá me trazer, volta e meia, um bom leitor. Pra me lembrar de que pode existir um pedacinho de lar em qualquer canto, em qualquer alma. Tipo na sua.


02:59

o amor líquido secou
e grudou lembranças na pele
mãos, mordidas, beijos
encontros, risadas, medos
brigas, desculpas, cheiros
sexo, orgasmos, seios
dedos entrelaçados
inseguranças e desejos
nós desatando em todo lugar

o amor líquido secou
e deixou um cheiro na pele
agradável e enjoativo
tipo perfume barato

é, meu bem,
o amor líquido secou
e deixou, na pele, vontades

estrela da manhã

02:34


O sol brilhava leve, como um rei em seu trono, mas mais como um deus. Era a primeira vez que experimentava aquela sensação em anos. A vontade de tirar os sapatos e sentir o chão cru sob meus pés. Contive o desejo e me sentei num dos bancos vazios. Acho que por ter passado por ela tantas vezes em tão pouco tempo, acabei criando uma relação afetiva quase íntima com aquela praça.

"A morte é só uma parte". Pensei tanto nessa frase que acabei falando. A morte é como uma porta misteriosa. Existem apostas, mas com tantas opções, reservo-me o direito de acreditar que a morte é só uma parte da vida, assim como o nascer.

Continuo desse lado, tentando saber como está aí. Um pouco mais iluminado com a sua chegada - guardo essa certeza. São mundos tão próximos que, sei, volta e meia você me manda uma mensagem pra dizer que está bem, como se estivesse numa longa viagem. E, aceitando a metáfora, acho que esteja mesmo. Estamos.

Dia desses chorei feito uma criança. Minto. Chorei feito um adulto, o que é bem pior. Sabe quando a gente chora meio sem motivo, mas quando pensa tem pelo menos uma dezena deles? Você sabe. Você sempre entendia e, volta e meia, compartilhávamos desse momento.

Mas aí, de repente, um sol majestoso, triunfante. De repente, a beleza, a calmaria, a paz, a serenidade, o equilíbrio. De repente, depois de tanto frio, o calor. E ele parecia me dizer qualquer coisa, feito um assobio agradável. Fechei os olhos e sorri. Não sei o que disse ao certo, mas senti aquele desejo imediatamente, o de ficar descalça. De sentir a vida em sua essência, com a forte sensação de que, de alguma forma, estava tudo bem.

De alguma maneira... Tudo estava no seu devido lugar.

14:34

alcança a tua própria mão e vê
frente e verso
um retrato ilógico das horas na pele
as linhas caminham e cruzam-se
interrogando-se incessantemente
"para onde devo ir?"
tontas, desenham no corpo
a firme certeza de que,
sempre e agora,
tudo passa
o tempo todo

nota

14:32

ao nascer, a morte e vida iniciam o mesmo percurso em nós, porém em caminhos simetricamente opostos. enquanto uma vem, a outra vai.

01:10

as pegadas não me dizem nada
saber o início do caminho
não me mostra a direção
só me faz querer voltar
passo após passo

mas se é preciso pegadas
para voltar ao lar
será mesmo esse o lar
ao qual se deveria retroceder?

20:08

nem vejo mais o tempo passar
o tempo, esse velho doente
um desastre perfeito
cheio de dimensões
que transformam minutos em horas
que desmancham na pele
e caem por entre os dedos
feito água mole em pedra dura
e acelera o coração
dizendo que foi ontem
ou que vai ser amanhã
mas é sempre hoje
é sempre agora
e ensurdece
e cega
e puxa forte
e bate, espanca
e deixa o sangue coagular
só pra bater de novo
amanhã

12:41

o passado me lembrou ontem
quando te ver era paz
tinha afago, carinho
e certa ingenuidade
mas o tempo voa, dizem
e o agora é outro
sem balanço
sem conselhos
sem canções de ninar
hoje, é só você
e um pedido de desculpas

poema

18:54

tinha certo descontrole
no entrelaçar das pernas
a mão trêmula insistia em levar o copo à boca
tinha certo descompasso, também
na ânsia de favorecer a intuição
tentava não deixar que nada escapasse do olhar
e, por isso mesmo, as coisas lhe escapavam
como se fugissem dela
como se fosse melhor não saber
e, talvez, fosse mesmo
qual a melhor forma de fazer esse cálculo?
não sabia ela, nem o sabia eu
dois ignorantes ébrios
náufragos nesta ilha
rodeada de conhaque, vodca
e um pouquinho de limão

01:45

não era mesmo, enfim,
o brilho da primeira hora
as cores que antecedem a noite
o perfume da recém desabrochada flor
nem tampouco o frescor da juventude
não era a devoção pelo novo
nem o desejo do risco
ou a canção de fé
entoada num transe espiritual intenso
o afeto que sentia
não era, de fato, o palpitar do coração
que se assusta e se encanta
com a arriscada queda da cachoeira
não era o céu ilustrado
recheado de lindas constelações
sabia bem
a paixão não era nada disso
mas, uma vez juntos, era como se fosse

01:54

vês?
os descaminhos
os desencontros
observa-os atentamente
percebes a delicadeza que há no azar?
não, não percebes
teu olhar acusa o que foi um dia
teu olhar acusa a falta
pede a volta
do tempo dos encontros
quando tinhas todas as expectativas confirmadas
quando te sentias confortável com o previsível
comigo
talvez, se parasses para contemplar a falha
talvez, se notasses a beleza do fim
talvez, acredito,
talvez, verias como eu vejo

despedida

01:25

a cidade em que cresci
pequena sin city
meu lamento e minha Vitória
suas ruas, veias abertas,
foram, outrora, minha redenção
mas, agora, tudo me é sufoco
tudo me sufoca
as verdades que me lembram
as verdades pintadas nos muros
com sangue
as verdades que já sei
e as que tento não lembrar
e que você, querida ilha, não me deixa esquecer
crimes, brigas, assaltos, intrigas
medo marcado na derme da alma
na epiderme
minha pequena gotham
o feio e o belo andam juntos
lembro das tardes nos parques
dos sorrisos aos domingos
dos banhos de mar
dos beijos, do amor
você me mostrou a vida
e, não sem dor, me ensinou a viver
agora, querida, me lanço na história
velando teus segredos, tua magia
chorando teus mortos, tua desgraça
pra te dizer o que o poeta disse antes de mim:
deixe-me ir, preciso andar

20:27

Eu preciso escrever. Eu sinto que preciso escrever uma série de coisas e é urgente. Uma série de histórias - ainda não contadas. Eu preciso contá-las. Algo dentro de mim pulsa e me faz perder o sono pensando nessas histórias que preciso escrever. Mas quando vou tentar tirá-las do mundo embaralhado das ideias, as palavras... Elas me escapam. Estão perdidas, confusas, anacrônicas. Acho que, pensando agora, talvez eu precise escrever coisas que eu mesma não sei como dizer.

19:49

entrelaçaram os fios da história
alinhando todo o romance
teia e trama trançadas
numa só máquina de tear
para que, se caírem,
possam um ao outro
amor-tecer

01:44

entre os brasis que pipocam em brasa
agitando-se por todos os lados
e febris por atenção
encontrei o teu, geni
estava podre, sujo e amordaçado
debatia-se, geni
com os braços amarrados nas costas
e um roxo olho que saltava
geni, o teu brasil tinha um olhar triste
e símbolos de vênus que sangravam
exalando um cheiro de morte que me fez chorar, geni
me fez chorar
mas, vendo a minha lágrima,
teu brasil se levantou, geni
quis me abraçar
tentou gritar
e, finalmente, deu um berro que me calou
e foi assim, geni, que pude ouvir o teu pedido de socorro

Sobre querer partir sem ter que abandonar

23:09

E se eu comprar uma passagem só de ida para alguma outra cidade? Não, isso não é uma ameaça. Nem tampouco alguma forma egoísta para ouvir coisas boas ao meu próprio respeito. É só a pergunta que eu tenho me feito todos os dias antes de dormir.

Tenho pensado em abandonar tudo o que ajudei a construir, só para começar a ajudar a construir outras coisas.

E, volta e meia, chegam aos meus ouvidos casos de amigos, amigas, conhecidos e primos dos amigos que foram e ficaram por lá. Como se fosse fácil ir, como se fosse fácil permanecer. Como se fosse fácil não cansar. De novo e de novo.

E todas as noites me faço imaginar como será, ou como seria, quando eu largar, ou se eu largasse tudo, tudo.

Por que eu ainda estou aqui?, me perguntei dia desses.
Ontem mesmo, eu me respondi: meu medo é ir e, bom, não voltar mais.

11:43

a alegria virou estrela
deixou buracos
vazios impreenchíveis
ódio e desesperanças
e quem perceber a tristeza no olhar
perceberá o óbvio
infindável saudade

18:54

pela vida que me dás,
água,
a ti, devo tudo
recomeços, meios e fins

pela vida que me levas
água,
em ti, me dissolvo
nascentes, rios e quedas

e me deixo
cada dia
pouco a pouco

um tanto mais vai
um tanto menos resta


18:38

o ar não sangra
quando a gente o corta
ventila, grita, abafa
mas sangrar?
sangrar não

Saulo

15:26

A notícia veio como um meteoro gigante atingindo e destruindo todo o meu mundo. Nunca pensei que fosse possível sentir tanta dor. Ao mesmo tempo, agora, não sei quando ela irá acabar. As lágrimas escorrem incessantemente. Mas eu precisava juntar as forças e fazer o que eu mais amo, em homenagem ao amigo que mais amo: escrever. Seja a minha a melhor gramática, a melhor semântica, a melhor retórica, sei, nunca conseguiria escrever um texto tão incrível quanto você merece, mas estou aqui. Você sempre me impulsionou a ser o melhor de mim e é isso que eu estou fazendo exatamente agora.

Não desejo que as pessoas leiam todo esse texto, desejo apenas, na minha fé, que você sinta todo o meu amor. Eu te amo, amigo, meu irmão. Vou sempre amar. Nada conseguiria desfazer essa injustiça que cometeram com você. Mas eu imagino você aqui, como sempre procurando a esperança, dizendo para mim que foi para um lugar melhor. Imagino você me confortando, imagino você dizendo que, agora sim, encontrou seu lugar.

"Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para outro mundo". Lembra? Nossa frase, nossa sina. Imagino você sorrindo, no esplendor, tentando me dizer de alguma forma "Deus te ama sim, estou com ele aqui". E te ama, também.


Eu te conheci tinha 15 anos. Uma adolescente, pra frente, linguaruda, que achava saber tudo sobre quase tudo. Você, sempre tão amável, me amou. E quando você me amou, querido, eu me despedacei. Sem medo, para você, reconheci todas as minhas falhas e os meus não-saberes. E você continuou me amando. Mais até do que eu imaginava merecer.

Você sempre esteve presente. Sempre. No meu aniversário de 16 anos, lembro, você me fez um cartão tão lindo. Tinha eu, tinha você e tinha a pracinha de Jardim Camburi, onde a gente se conheceu. Onde costumávamos passar horas e horas conversando, sobre a vida, sobre Deus e sobre os nossos questionamentos mais profundos que, imaginávamos (e talvez fosse verdade), que ninguém mais seria capaz de entender. Você sempre foi tão criativo. Me deu tantos cartões bonitos. Tenho todos guardados.

Eu vou conviver com a dor, como você tão corajosamente, me mostrou ser possível. E me ensinou ainda mais: é possível conviver com a dor, transformá-la em esperança e desfrutar do amor de Deus. Tudo ao mesmo tempo. Esses dias você disse que sua terapeuta pediu para você fazer listas: uma com suas qualidades e outra com os defeitos. E ela pediu para você perguntar, também, aos seus amigos, suas qualidades e seus defeitos.

Pra mim, foi tão fácil falar das suas qualidades. Saulo, meu amigo, meu irmão, você é simplesmente a melhor pessoa que eu já conheci. Quando veio a parte dos defeitos, não consegui pensar em dez, como você queria, mas consegui pensar em alguns. Mas a minha lista de defeitos é tão maior que a sua que me sinto imensuravelmente grata por você me amar, ainda assim. Ter me amado.

Não sei mais o que fazer. Preciso me reconstruir, preciso que você me diga que está comigo, em algum lugar. Me ajudando quando eu ficar bêbada, rindo dos meus casos, tentando entender minhas crises existenciais, me fazendo companhia para ver bob esponja na tv, se fantasiando comigo, pagando mico, chorando e orando comigo. Sem você pra compartilhar, a vida perde a cor. E a tatuagem que a gente queria fazer juntos? E agora? Preciso tanto de você. 

Te amo pra sempre. Nesse ou em outro mundo.

quando a poesia vira poema?

10:46

quando?
qual o tempo exato
o nano segundo
pedaço de hora
que estala e explode
qualquer coisa
que vire poema
que vire rima
ou que não rime?

qual seria, poeta
o instante perfeito
da eclosão
do surgimento
do nascimento
da aurora
da primeira hora
do recém nascido poema?
quem o vê?
quem vê seus primeiros passos?

promoção

17:36

meu pouco amor
te vendi a baixo preço
a quase nada
na verdade
meu coração
eu te dei de graça

então
antes que eu zere o estoque
antes que o negócio acabe
e só sobre no canto do quarto
um pouquinho de poeira

aproveita a promoção
e me aproveita de graça

15:33

acho que eu não sabia mais o que era isso. essa coisa que toma a gente de assalto e a gente chama de paixão. foi tipo um tropeço. um acidente, foi sem querer. ele me viu, me chamou, me quis, quando dei por mim... eu era quem o chamava, quem o queria. e não sei de onde vem tanto medo. é como se eu estivesse passando por isso pela primeira vez na minha vida. e a cabeça doi de pensar que ele não quer mais me ver. depois fico com raiva de mim por essa insegurança. logo eu? logo eu...

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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