23:11

Qual o sentido de permanecer, então? O estar pode ser tanto... Quando penso no que há - sim, há - além do tempo e das coisas em si sinto que o permanecer é muito mais. Por que permanecemos? É o que tenho me perguntado. Se somos assim tão livres quanto imaginamos, por que estamos constantemente voltando? Não há nada de mal em querer voltar, penso. Mal pode haver, talvez, na coisa para a qual se volta, mas quem sou eu pra falar nesses termos...

21:29

tempo em si é só palavra
signo
coisa que passa na'gente
figura quando passa mais do que é
mais do que palavra de cinco letras
mais do que estar por estar
toca quando passa o outro
quando passa o que não sou
e aquelas coisas outras todas que trazem
de lá pra cá
feito escambo de emoções e pensamentos

dá pra dizer: tempo é nada
porque não é mesmo
é o que dizemos que é
ponteiro e número
mecanismo e tal
verbete em dicionário
mas dá pra dizer ainda: tempo é tudo
quando tempo, palavra, extrapola seu próprio tempo
de coisa que tem
ou é
ou faz
e segue passando

11:15

Eu que sempre quis ser nada, enfim, sou. O tempo que te passa é seu. Mas sinto. Para sua infelicidade - ou não - sinto, imagino, como Cartola sentiu, a tristeza de estar só... E, agora, a alegria de estar junto... Também. Sinto.

16:06

Desde que você se foi, tudo mudou. Estranho dizer isso, porque sempre falei que a morte é só mais um passo, nada mais. E pra você foi, certamente. Eu é que fiquei. Primeiro eu morri um pouco junto. A dor tomou completamente a minha carne que costumava ser toda carnaval. Eu chorei, mas isso foi o mínimo. Impossível não sofrer com a sua ida. Acho que por isso resolvi ir também. Fui embora querendo ficar, mas só ficaria se você voltasse. Então fui. Depois, eu senti. Você, indo, me lembrou que o corpo é a única coisa que eu tenho, mas que também não é nada demais. Nada demais, como tudo. Fragile. Então o pouco que me restou de sagrado se desfez. Coloquei meu corpo no mundo, não como quem finge. Eu realmente estava lá (ainda estou). Queria sentir qualquer coisa que não fosse saudade. Você teria se orgulhado de tudo o que a pele me fez sentir quando estava lá. E riríamos juntos da minha audácia. Mais tarde tive medo. Medo de que não sentisse mais nada que não fosse o que a pele me dava. Então decidi amar qualquer pessoa que me aparecesse. Mas não é a mesma coisa, você sabe. Você me entenderia e ficaríamos contemplando a existência enquanto nos perguntaríamos o que é o amor. Amei amores tão vazios que secaram rápido. Quis me abrigar em qualquer canto e tem sido assim desde então. Não encontrei lugar como o que havia em você. E sei que não encontrarei. Por isso, volta e meia choro. Ficar dói mais do que partir, nesse caso.

23:34

eu sou pouco
nunca serei muito
é que me apego nesse meu tamanho
coisa miúda que sou
sambo baixo pra não atrapalhar
tenho medo de entrar onde não me é familiar
bi-cho do ma-to, mas nem sempre
há certa força na minha pequeneza sim
mas também é pouca
admito sem medo
até porque quem vai ouvir?
eu, só, sou quase nada
carrego comigo a certeza de ser assim
um pouquinho de nada
partícula leve de poeira
pedaço de brisa
que volta e meia
faz a fruta cair do galho

22:37

Não é como se eu soubesse sempre sobre o que digo, mas, sim, estou sempre dizendo. Só que nem sempre digo com palavras - essas com as quais adoro brincar e você também. Às vezes digo de outro jeito, às vezes digo com o corpo mesmo. Talvez, não sei bem, mas talvez o faça assim dessa maneira muito mais do que com as letras. Linguagem, você diz. Ah, linguagem é isto: corpo, a corporeidade das coisas que calhou certa vez serem esses símbolos todos juntos. E é sempre uma relação a dois, sabe? Digo "a dois" só como metáfora na verdade, digo para que entenda que não é coisa de um só. Linguagem é sair da solidão e queira você ou não é o que acabamos fazendo com esses pixels todos que invadem a tela, a palma da mão. Enfim... Volta e meia a gente faz isso mesmo. A gente diz, mesmo sem querer dizer.

corpo presente

12:40

quem você pensa que é
pra vir aqui e cortar meu gozo,
homem?
podar meu prazer
ao seu bel-prazer
sinto muito
e sinto com o corpo todo
não é só com o coração não
como você julga
ou se engana ao acreditar
a mãe das mães também fode, oras
eu sinto na pele mesmo
arrepio
desejo marcado no olho, na íris
boca, peito, clitóris
é que meu corpo é meu
não tenho nada
só tenho esse corpo que deus me deu
desse jeito que ele é
em eterna mutação
que sente, sofre e goza
mesmo quando você nega
ou esquece de se lembrar

ressaca antes da morte

02:50

tentei antes que me fosse tirada a chance
e os dias soassem feito buzina de trem
que na madrugada grita longe
quase que em outra dimensão
também disse qualquer coisa
antes que a fala me engasgasse feito vômito represado
feito faringite brava que não vai embora
nem com amoxilina, mel ou gengibre
ainda pensei em gritar
mas só pensei mesmo
pensei por pensar
antes que tudo começasse a se desfazer
num branco tão alvo que nada mais parecesse existir
e o gozo, deixei vir...
antes que a carne das coxas endurecessem
e, roxa, travasse o pior dos meus instintos
e me deixasse a sós comigo
sem que eu pudesse vagar assim, feito alma penada
carregada dessas dores todas que a gente tem
e guarda sempre que precisa dizer
principalmente depois de beber algumas doses de cachaça
...

poema

poética

04:39

mas que ética há nos versos?
ah, que me venham assim
abruptos mesmo, rudes
sem receio, nem ressentimento
vá! pra que pensar a hora?
quando quer, não vem
então tem que ser assim
com estrofes mal educadas
e sí labas des governadas

mas poema precisa de ética?
dizer por favor e obrigada?
desde quando?
poema tem que chegar chegando
dando chute em porta velha
gritando um foda-se bem dado
e os caralhos que nos acompanhem

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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