23:27

dia desses
pensei assim, recostada
(não que pudesse estar tocando aquela música do cazuza
mas estava)
pensei que se
TALVEZ
fosse sua mão a minha
seus olhos os meus
(não carece a repetição
quase nunca carece
mas é assim que faço
quase sempre)
fosse sua veia a minha
e o seu jeito o meu
é certo que veria o que vejo daqui

seus olhos tristes
sua alma cansada
seu corpo cheio de vida e juventude
o coração aflito
o abraço manso
o riso perene
...
(não que precisasse tocar aquela música do lenine
mas tocava)
e é assim, querida, como eu te vejo
paisagem serena
rio correndo sem pressa
cheiro de orvalho misturado com fruta fresca
que desata o medo que a cidade traz

é assim que te vejo, meu bem
e sigo vendo dia após dia daqui de onde estou
daqui
da outra ponta
daqui
do outro lado do espelho

Um samba qualquer na capital

15:07

Fazia tempo que não se viam. Quando uma não estava chorosa pela garganta inflamada, a outra sofria da ausência de carinho numa noite de gripe alérgica intensa. "Quando nos vemos?", perguntou uma. "Quando quiser", respondeu a outra. Chegou o sábado e Uma se preparou para Outra. Ônibus, metrô, trem. Finalmente, chegou ao litoral do litoral.

Outra se arrumava não muito meticulosa para o que quer que fossem fazer naquele fim de semana sem doenças respiratórias. Uma só queria usar de novo seu batom vermelho. Era um rito de empoderamento. Ela e esse tal do batom vermelho. Ela se olhava no espelho e repetia algumas vezes elogios a si mesma, a sua índole, a sua beleza, ao seu intelecto, até se amar completamente.

Quando Outra virou a chave de casa, e as ruas esperavam ansiosas pelo que viria a acontecer, Uma disse: "Se Deus decidir ser bom comigo, algum empresário vai aparecer pra me pagar bebidas". Outra riu. Riu, porque além de Uma ser realmente engraçada, esse era o tipo de coisa que vivia lhe ocorrendo sem que fizesse pedidos a deus.

À meia noite, o samba ecoava na voz de todo povo e de Uma que sambava aparentemente feliz. Outra estava cansada e, sentada, observava de longe Uma tentando se divertir. Uma gritou, cantando: "Viveeeeer e não ter a vergonha de ser feliiiiz". E sambava. Não havia sinal de qualquer empresário interessado em bancar Uma e seu batom vermelho. E, à essa altura, não havia qualquer sinal de que isso fosse mesmo necessário.

Uma fechou os olhos sem deixar de sambar. Cantava, parecia ainda mais feliz. Outra estava lá ainda, com sua longneck, quando viu lágrimas descendo e contornando o sorriso fraco da amiga que seguia rindo, sambando e cantando que a vida "é bonita e é bonita".

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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