da minha embriaguez

02:07

você me pede que te fale sóbria
quando o sentimento já está embriagado
destilado nessas lembranças que guardo
como efeito colateral da memória
nem mesmo as doses pequenas de sanidade
estão isentas de ebriedade
o negócio é pileque, sabe? tem que ser
pra poder aguentar o tranco aí do amanhã
mas o que você não entende
é que a gente não fica bêbado só de cachaça
cerveja, champanhe ou catuaba
tem muita coisa que não cabe no copo
muita coisa que extrapola a garrafa
e que tá aí...ta aí, meu amigo
em tudo

maternidade

00:16

no princípio, havia um som
você me fez uma canção
e ela tinha ritmo, disso eu sei
harmonia, compasso, melodia
poderia dizer que era bela a sua voz
que cantava alegre, dia sim, dia não
poderia dizer, mas não digo
e não digo, pois não lembro
perdi as palavras no tempo
o acorde vago cegou os meus dias
ou vagou cego nos meus dias
acho que deixei a meada perder o fio
e preciso admitir que não sei bem
as estrofes, as pausas, o refrão
de tudo, de tudo, espero que perdoe
porque, afinal, lembro que havia uma canção
fecho os olhos e posso sentir o som
quando me encolho bem antes de dormir
com meias nos pés quando esfria
mas a letra, droga, a letra,
o toque, o tempo...
esses eu já perdi.

21:36

eu não tenho um coração
eu tenho algo em mim
que me faz querer amar e conhecer
cada lugar que eu vou

eu não tenho um coração
eu tenho um poder, uma força
que me leva a andar por este mundo
a procura de qualquer coisa
que faça eu me sentir viva

eu não tenho um coração
o que eu tenho em mim
não é algo que possa ser tocado
com a palma das suas mãos
nem mesmo guardado
numa caixa de pequenas memórias

talvez essa coisa nunca morra
mesmo se meu corpo se tornar inútil
e meu sangue não correr mais em minhas veias
e minha pele não aquecer os braços seus
e meus olhos não lhes virem como agora
mesmo que meu pó seja velado sobre o chão
e às margens dos rios quase mortos despejado
mesmo que pereça toda terra e todo grão
todo feto e todo pão
mesmo que não haja mais o que dizer
em poemas bobos como este
talvez, bem talvez
essa coisa ainda esteja lá

14:51

acordei e você estava lá
me olhava com curiosidade
feito criança a descobrir o mundo
pisquei uma, duas, três vezes
e você ainda estava lá

ainda que frágil, quis parecer forte
e me fiz assim em pedaços
mas a ternura que havia em você me abraçou
tomou-me pela mão e me amou
destruída, aos pedaços, amou-me assim
além das imperfeições

o que havia em mim não quis fugir
o que estava em mim não viu ameaça,
armadilha ou qualquer coisa do tipo

(a mão que me acolhia era a mesma que me abraçava)

há de haver alguma explicação
talvez não nesse mundo
nem em outros
nem em lugar algum que se possa ver ou tocar
nem mesmo nos livros que costumamos ler
ou nas músicas que você me fez escutar
mas há de ver em algum canto escuso da alma
qualquer coisa, uma pista ou sei lá
que me explique, elucide, examine
que me faça entender
o que é que os seus olhos viram ao me ver

11:08

Nunca tive grandes ambições, sabe? Grandes desejos, coisas megalomaníacas. Sempre imaginei minha vida simples, leve. O máximo que já pensei em realizar foi abrir um bar, mas numa cidade não muito grande também que é pra manter a calma. É que sempre quis viver assim leve, devagar, como se estivesse aqui só a passeio, sem protagonizar nada. E acho que é bem isso mesmo. Quero dizer, são 100 bilhões de galáxias nesse nosso universo em expansão, como é que eu vou protagonizar alguma coisa senão minha própria e pequena história? Mas aí uma coisa aconteceu. Entre essas mais de 7 bilhões de protagonistas que habitam a Terra, eu te encontrei. E, putz, como explicar essa equação? Como entender o tempo, os caminhos e tudo o que levou minha alma a encontrar a sua? O quão incrível e maravilhoso é isso?

23:27

dia desses
pensei assim, recostada
(não que pudesse estar tocando aquela música do cazuza
mas estava)
pensei que se
TALVEZ
fosse sua mão a minha
seus olhos os meus
(não carece a repetição
quase nunca carece
mas é assim que faço
quase sempre)
fosse sua veia a minha
e o seu jeito o meu
é certo que veria o que vejo daqui

seus olhos tristes
sua alma cansada
seu corpo cheio de vida e juventude
o coração aflito
o abraço manso
o riso perene
...
(não que precisasse tocar aquela música do lenine
mas tocava)
e é assim, querida, como eu te vejo
paisagem serena
rio correndo sem pressa
cheiro de orvalho misturado com fruta fresca
que desata o medo que a cidade traz

é assim que te vejo, meu bem
e sigo vendo dia após dia daqui de onde estou
daqui
da outra ponta
daqui
do outro lado do espelho

Um samba qualquer na capital

15:07

Fazia tempo que não se viam. Quando uma não estava chorosa pela garganta inflamada, a outra sofria da ausência de carinho numa noite de gripe alérgica intensa. "Quando nos vemos?", perguntou uma. "Quando quiser", respondeu a outra. Chegou o sábado e Uma se preparou para Outra. Ônibus, metrô, trem. Finalmente, chegou ao litoral do litoral.

Outra se arrumava não muito meticulosa para o que quer que fossem fazer naquele fim de semana sem doenças respiratórias. Uma só queria usar de novo seu batom vermelho. Era um rito de empoderamento. Ela e esse tal do batom vermelho. Ela se olhava no espelho e repetia algumas vezes elogios a si mesma, a sua índole, a sua beleza, ao seu intelecto, até se amar completamente.

Quando Outra virou a chave de casa, e as ruas esperavam ansiosas pelo que viria a acontecer, Uma disse: "Se Deus decidir ser bom comigo, algum empresário vai aparecer pra me pagar bebidas". Outra riu. Riu, porque além de Uma ser realmente engraçada, esse era o tipo de coisa que vivia lhe ocorrendo sem que fizesse pedidos a deus.

À meia noite, o samba ecoava na voz de todo povo e de Uma que sambava aparentemente feliz. Outra estava cansada e, sentada, observava de longe Uma tentando se divertir. Uma gritou, cantando: "Viveeeeer e não ter a vergonha de ser feliiiiz". E sambava. Não havia sinal de qualquer empresário interessado em bancar Uma e seu batom vermelho. E, à essa altura, não havia qualquer sinal de que isso fosse mesmo necessário.

Uma fechou os olhos sem deixar de sambar. Cantava, parecia ainda mais feliz. Outra estava lá ainda, com sua longneck, quando viu lágrimas descendo e contornando o sorriso fraco da amiga que seguia rindo, sambando e cantando que a vida "é bonita e é bonita".

13:30

tem uma coisa sobre a minha cabeça
perto do pescoço e da nuca
que me transfere o peso de 200 mil anos
todas as guerras estão sobre mim
todos as mortes estão sobre mim
todos os medos estão sobre mim

tem uma coisa sobre a minha cabeça
caminham os ladrões, os coléricos
os reis, os bispos
os padres, os maridos
a foice e o martelo
o dinheiro, a indústria
andam todos sobre os meus ombros
todos nascidos do meu próprio ventre
de um lado a outro, andam
gritando seus desejos insanos
matando-me pouco a pouco

tem uma coisa sobre a minha cabeça
que tem o tempo da humanidade
que me cala quando quero dizer
e me açoita quando penso em tentar
e me rouba quando penso em querer
e me mata quando quero gritar

tem uma coisa sobre a minha cabeça
e doi sempre que penso, tento, grito e quero
por quanto tempo mais - pergunto-me há seculos
- ela ficará lá?

Síndrome do Gato de Cheshire

18:33

"Às vezes, a gente se perde, sabe?". Ele me disse como se eu não soubesse disso. Os anos que eu tinha a mais me davam certa vantagem, mas, quando esse sentimento de abandono invadia, a gente se olhava e ficava assim mesmo, sem resposta.

Lembrei de Alice que, sem saber para onde queria ir, ouviu do sábio gato as palavras que tem me servido de mantra desde a infância: "Sendo assim, qualquer caminho serve". De fato, o gato de Cheshire é muito mais sábio do que o Pequeno Príncipe, chatíssimo com suas lamúrias carentes.

Enfim, a coisa é que vi um monte de fios de cabelo pelo chão do banheiro e isso não me irritou nem um pouco. Deixei estar. Decidi ser compreensiva comigo mesma e, na ausência de qualquer outro para julgar, sentir a redenção. Mas, com ela, a dúvida. Perguntei ao gato: "Como faço para sair daqui?".

Como faço para deixar esse sentimento de abandono? Como faço para dar conta de ser independente, cuidar da casa e ainda bem resolvida emocionalmente com a vida, com os amores e com o passado? Ele, como era de seu feitio, me perguntou onde eu queria chegar com isso e eu disse que não sabia. Voltei à estaca zero. Qualquer caminho me serve, qualquer caminho sempre me serviu.

Certo. Senti saudades de outros caminhos, mas entendi o gato. Este é agora o meu caminho e há o que descobrir nele. Assim como Alice descobriu.

Notei a comida estragada na geladeira, o lixo a ser retirado e o calendário. Dei asas ao tempo e me pendurei sobre o passado por alguns instantes. A menina de 12 anos que eu era jamais pensaria em estar aqui, exatamente agora. Muito menos a mulher de um ano atrás. A de 12 pensava em esquecer o primeiro amor. A ferida ardida que doeu meses a fio.

"Besteira", dizia a mulher de um ano atrás.

E eu fico aqui tentando entender o que temos em comum. Eu, a de um ano atrás e a menina. Acho que é isso. Alguns anos nos separam, desejos e lugares nos diferenciam, mas continuo perguntando ao gato: "Como faço para sair daqui?".

01:28

Peguei o metrô na Central dia desses. Desci três estações depois e só agora parei pra me perguntar se você já havia andado de metrô. Desde que você se foi, sou parte do que você deixou e isso pra mim não é ruim - apesar da dramaticidade necessária ao dizer. Afinal, desde que tudo aquilo aconteceu, a morte me tomou de assalto e não há um minuto sequer que eu não tenha pensamentos existenciais.


Se não tivesse sobrado, portanto, um pouco de você em mim, eu, intensa e impulsiva como sou, não veria muita necessidade em continuar procurando um emprego que vai me explorar durante doze horas seguidas por um salário que mal dá pra pagar as contas.

E enquanto envelheço, rejuvenesço. Todas aquelas conversas que eu tinha, antes, na mesa do bar, agora me doem a nuca como se o mundo delicadamente se assentasse sobre mim. E depois doem as costas, o estômago, o útero. Rejuvenesço, então, na direção da meninice, da molecagem. Permito que minhas preocupações centrais sejam simples de resolver, permito sentir como uma menina cujo primeiro amor não é correspondido, porque lá dentro sei que tudo isso já foi solucionado.

Tento não pensar na finitude, na galáxia, no tempo. Mas, como Cássia e tantos outros, sou poeta e não aprendi a amar. O que me sobra é escrever. Agora, procuro me dividir entre a velhice a juventude, ainda que, sabemos, a qualquer hora a escolha será feita, sozinha. Independente do meu querer.

Voltando da Tijuca, peguei um trem. Penso, agora, se você teve a oportunidade em vida de ver passarem as estações, os ambulantes, as pernas apressadas - enlatadas no meio da cidade. Olho o celular e meus problemas adolescentes me chamam. Há certo equilíbrio ainda, graças a você.

00:48

acenda as luzes e verá
nesta escuridão, sangraremos todos
não há saída, não há esperança
só alguns livros tentando explicar
e outros tentando entender
porões fabricam drogas lícitas
que necessitam de receita médica
os becos abrigam as mortes efêmeras
e as emissoras anunciam dia após dia
o prelúdio do nosso fim
não existe profecia
não existe presságio
é só reflexo, é só efeito
é só o desfecho imprescindível
da nossa própria e longeva queda


14:29

assim sabes
do meu suor
da minha pele
em pleno arrepio
claro e sincero
assim notas
dos olhos fechados
cerrados, apertados
como eu e você
inevitavelmente
eu como você
assim sentes
no êxtase
do verbo conjugado
sei, também
comemo-nos
despidos de pudores
medos, exigências
ex-amores,
ideais políticos,
piadas ruins
elogios rasgados
saudades esquecidas
etc e tal.
enfim,
comemo-nos
felizes.

vestígios

01:19

que na tua lembrança
repouse o meu melhor sorriso
e no olhar, o meu melhor pedido
que no teu peito,
sempre aberto aos versos meus,
deite o desejo de ser um pouco mais tua
e de que sejas a cada dia um pouco mais meu
nas noites mal dormidas, meu melhor carinho
no medo, meu melhor abraço
no choro, meu melhor consolo
no beijo, meu melhor amasso
que nos tropeços por essa vida
caiba sempre um poema meu
na partida, o meu melhor adeus
e, em ti, se puder,
que haja sempre espaço
pro meu melhor eu

Fluxos

00:19

1

O que me incomoda é essa falta de satisfação. Tipo Rolling Stones, sabe? Tá que é boa a questão da utopia, pra gente seguir em movimento. Mas quando a coisa é entre a gente, entre eu e você, fico pensando onde fica a satisfação. Quanto de mim não basta pra te fazer feliz? Devo me preocupar isso? Eu, particularmente, acho que não. E acho que é bem por isso que abro mão do que você chama de nós sem muitas dificuldades.

2

- Como foi no início? Nossa, foi uma dor que nem sei te dizer direito. Mas... acho que ainda tá no início. Não? Sei lá, tem tempo pra essas coisas passarem?

3

Às vezes, eu acho que eu vivo num descompasso entre corpo e alma. Como se o tempo passasse diferente pra cada...

4

Esses dias você me disse que estava apaixonado, meio que insinuando que fosse por mim. Rio agora porque, lembrando, acho engraçado você ter falado como se fosse a primeira vez que tivesse dito aquilo pra mim, ou pra qualquer outro alguém; pior: como se fosse a primeira vez que eu tivesse escutado essas palavras. Ou, sei lá, como se fosse naturalmente alguma coisa boa. Dois dias antes, me mandaram esta exata mensagem: "Tô apaixonado". Não me cabe entrar nesses assuntos. Nunca vi muita necessidade nessas declarações. E, sim, sou uma romântica não-assumida, mas sou! Só que, veja bem, certas literalidades me esgotam, me entediam. Eu perco o tesão e, automaticamente, a paixão. Meio contraditório, eu sei. Mas é o que tem acontecido, pelo menos, nos últimos 15 anos. Teve essa vez, desse cara que me ligou na noite em que nos beijamos pela primeira vez. Primeira e última. O inocente, mal sabia, ligou para dizer que estava apaixonado. Teve esse, este, aquele outro. Acabo saindo como a megera da história, mas é difícil me fazer entender quando preciso competir com qualquer manto sagrado da paixão. É difícil competir com o ideal, com as expectativas. Mais irônico ainda é eu te dizer isso, sendo que há um ano estava eu apaixonadíssima - só não disse; não literalmente. E sentia ciúmes, sentia falta, queria abraço, beijo, consolo. É que costumo deixar o tempo dizer essas coisas que não precisam ser ditas. Por isso, querido, temo que meu fatídico destino se repita agora - e, creio, se repetirá. Então, antes de mais nada, antes de qualquer dor, antes de qualquer medo, preciso que saiba: te amo.

5

Por muito tempo acreditei nessa coisa de que ninguém é uma ilha e, confesso, não sei nem de onde veio. Joguei no Google, tal de John Donne e a frase completa é: "Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo". Concordo com suas intenções, John, mas de resto discordo abertamente. Pra mim, que não sou ninguém importante, todo mundo é uma ilha e aí, juntos, somos um enorme arquipélago, sabe? Tentando conexões, dependendo da água que vem e vai - mas cada um com sua coisa; sua dor ininteligível. E essa coisa de a ilha ser completa em si mesma é meio absurdo se você pensar no ciclo da água, no Sol e no resto da galáxia, não? Ah, bom... É o que eu penso, John. Mas sou só eu, postando num blog qualquer. Você é quem é citado no Pensador.com, não se preocupe. Só queria que, se der, em algum lugar, onde estiver (e se estiver), pense sobre isso, porque eu ando pensando. Bastante.

6

Eu nunca sei se as pessoas estão sendo mesmo sinceras. Tem aquela coisa do instinto, que eu - crente - confio piamente, mas que não é certeza de nada, né? É tipo uma fé. A gente meio que é obrigado a ter fé nas pessoas, a confiar no que estão nos dizendo. Engraçado que, agora, vejo em seus rostos a vontade de me peguntar qualquer coisa, dizer qualquer palavra de consolo e eu mesma acho graça disso. Que bobagem! Mas, por fim, acho que entendem e veem em meu rosto quando digo que palavras não me consolam. Só o amor me consola.

7

O silêncio absoluto existe de fato? Quer dizer, se a coisa toda é uma só, há de haver qualquer grito escondido enquanto a gente cala do lado cá. Silêncio bom é silêncio nosso, de alma. Esse silêncio outro, de fora pra dentro, chega a ser engraçado. A gente se pega tentando achar explicação pra tudo quanto é ruído. Pelo menos, eu o faço aqui na cidade. Tem sempre um motor ligado, um pneu freando, um grito de socorro ou de prazer. Tem sempre qualquer coisa acontecendo e se o nosso relógio não freia, tal qual - quase sempre - desesperado o pneu notívago, que fazer? A gente fica meio anestesiado, né... Taí. Por isso que eu digo que, ainda que o silêncio absoluto seja um mito, o silêncio da alma é o que me fez escapar diversas vezes da loucura sem propósito, aquela que deixa a gente meio robótico. Sei lá, ela é tipo meu pior pesadelo. E aí quando vem qualquer sintoma dela, sempre latente, saio de cena por uns minutos, por uns dias, por uns meses. Ah, nem penso bem o tempo. Só saio. Um pouquinho. Sabe? Ou não sabe?

8

Fiquei feliz de te ver na semana passada e ter me sentido tão amada assim. É só um pouco triste, e me perdoe o egoísmo, a sua ausência. Mas tudo bem. Tudo bem...

9

Ando meio solitária nessa cidade-nuvem. Talvez, as pessoas venham pra cá pra isso. Mas e quem nasce aqui? Não sei. Tudo aqui é meio nublado, sempre ameaçando chover. Inclusive, e acho que principalmente, as pessoas. Andei sentindo falta do sol e do mar e a oração de ontem foi só um desabafo sobre a falta que o litoral me faz. Hoje, fez um Sol quase inacreditável.

10

É de se admirar que um céu pintado de pôr-do-Sol, um mar risonho a me cumprimentar e uma lenta brisa tenham o poder de curar, enquanto os pés se afundam na areia feito criança em abraço de mãe.

11

Sinto-me cada dia mais certa sobre a sincronicidade da vida.

12

Tenho pensado muito na coisa da autossabotagem. Percebi que faço isso o tempo todo. Com mais frequência do que imaginava, inclusive. Lembro que ainda criança deixei de convidar um dos meninos da turma para o meu aniversário porque havia descoberto sua paixão por mim. Quem foi que me ensinou a ser assim? É engraçado. A gente pula de pedra, bebe até perder a consciência, anda na cidade durante a madrugada, transa no primeiro encontro, mas basta que o abismo da paixão nos encare para que a criança amedrontada dentro de nós se manifeste. Por que tanta esquiva dos perigos de se apaixonar se, no fim, vamos sofrer de alguma e qualquer maneira?

02:08

se eu pudesse, talvez fosse outro
e se me dissesse, talvez não amasse
e não amando, te esqueceria
e esquecendo, te magoaria
e magoando, te acabaria
em mim
talvez sendo assim
trocando o dito pelo não dito
num mar de histórias não vividas
promessas não feitas
e beijos não dados
talvez seja menos doloroso
que um amor amado
agonizando entre espinhos
de dores mal resolvidas
pretextos nunca explicados
erros não perdoados
e medos jamais confessados

22:52

há de ter um jeito
a qualquer momento
alguma hora
em qualquer pressa
há de haver
como disse caê
qualquer transa

talvez não agora
nem amanhã
nem depois de amanhã
ou depois

mas há de vir
um tempo no meio do tempo
ou algum meio-tempo
em qualquer contratempo
que faça o seu beijo
encontrar com o meu

de novo

aqueles versos pra você

22:13

é que você me olhou, pretin
nem sei como dizer, só sei que foi assim
cê deu tempo pros meus medos
horas pra minha pressa
beijos nos meus dedos
calma pra minha festa

não que eu quisesse, né?
mas cê chegou aqui
tipo aquele xote que um dia escrevi
foi tipo devagarzim
no cangote, um cheirim
pra ficar de chameguim
tipo coringa e seu pudim

mas aí, já era, rapaz
entrou no meu coração
mexeu com a minha paz
me tirou da condução
deixou pedindo mais
fiquei meio sem noção
com medo de ser demais

e agora eu tô aqui
doutro lado do mundo
pensando se fico sussa
ou quem sabe piso fundo

sei lá

[deixa ser
o tempo vai dizer
se vou ficar ou não
(mas se quiser...)
segura a minha mão]

01:20

foi sobre aquele dia. aliás, é. eu tava pensado em te ligar e te contar que fiquei bêbada. em casa. sozinha. tudo bem se fosse o que eu quisesse, você sabe, né? me conhece. mas eu queria outro alguém. sei lá, minha mãe, aquele menino que eu achava que estava amando ou talvez você. a gente não se vê há tanto tempo e eu vivo dizendo que superei isso. mas. não sei. nunca sei. você marcou a minha vida. hahaha lembrei de tim maia. mas é sério. lembro de você com tanta coisa que vejo. tipo aquele filme. lembrei daquele filme que acho que você nunca viu. é um filme meio subcategoria. hahaha. não imagino você assistindo ele. mas lembro de você com ele e fui procurar alguns "quotes". sabe que isso? sabe, né. algumas cenas, citações, falas... achei uma que me lembrou de você. como sempre me lembrou de você. e eu tô bêbada ou quase lá, então acho que deveria mesmo ter lembrado. é simples. a moça disse: "eu te amo. muito. eu só não gosto mais de você". meu deus. é isso. exatamente isso.

eu te amo tanto. e você também me ama tanto. você tá em são paulo. eu, em curitiba. você pensa em doutorado, eu, em mestrado. mas sabe... te amo. só... sei lá. chega, né? chega de lembrar de você em tudo. eu preciso de lembrar de outra pessoa. por mais que eu te ame, preciso de chorar ou sorrir por outra pessoa. até porque.. você já o faz.

...

de qualquer forma: saudade,

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.