00:03

talvez tenha me visto assim
como cura para qualquer ferida
como esperança para qualquer dor
como tempo para qualquer pressa
como sombra para qualquer sol


mas sinto ter que dizer
ou então, desapontar
sinto ter que avisar
que o que viu era miragem
plano, desejo, ideia
sonho, imagem, quimera

o que viu
naquele outro dia
a chorar feito pássaro perdido
era outra coisa
mas não eu


01:30

"Amor", foi como me chamaste. Mas queria que chamasses "Alice", nome que tenho e que divido com a cantora que ouvimos, antes, quietos. A também chamada rainha dos raios. Queria que me chamasses de "Alice", mas ainda sorriria se chamasses assim: "Rainha dos Raios". Agradaria-me a referência, o afeto, a ironia. Mas não. Chamaste-me "amor". Sempre que o fazes tenho vontades e uma delas é perguntar, num tom calmo, simples, afetuoso e sereno: quem é que sou para que seja o amor? E, depois, talvez num tom levemente mais raivoso: quem é que és para saber o que ou quem é o amor? E que, pior, saiba-o sendo eu? Por que eu, querido? Ah! É, bom, enfim... Apesar disso, queria que notasses que doi em mim ter que dizer o nosso fim, mas, sei - e resigno-me agora que vejo que me olhas apaixonado - nunca notarás.

20:03

difícil chorar
com a alma já entorpecida
com os joelhos anestesiados de tanta reza

e o vento passa sem arrepio
e o sol aquece sem uma gota de suor

difícil chorar
com a garganta atolada de medo
com o coração quase sem pulso

e o corpo...
ah, o corpo
coberto de lama, poeira
metal e caos

e se chora
como saber o custo
da lágrima sofrida
desamparada
e quase esquecida?

quem é que paga, enfim, o preço
pelo desenvolvimento
da civilização ocidental?

03:48

finjo saber que sou muito
e engano o espelho
com certa maquiagem
finjo dizer que sei tanto
pra espantar o choro
de um coração selvagem
que chora penoso e sem gosto
ao ver minha dor tristonha
e larga ao chão
a breve alegria
da vida rica
da vida branca
da vida em cifrão

03:38

a ausência para
ela mesma para
dando espaço ao 'nós'
depois vem e me para
para tudo o que tem em mim
a ausência vem e se instala
e fica
e arde (vez ou outra)
mas fica

vem e diz
diz um bocado
o que quero e o que não quero
ouvir

vem, então, (depois) o caos
o caos ordenado
tipo um eco dela [da ausência]
vem e desordena
desse jeitinho orquestrado
e me lembra
sempre e toda vez
com todos os parênteses
e vírgulas fora de hora
que sou só
e simplesmente

repetição.

03:29

o silêncio diz tanto
mesmo quando a dor cala
o maior dos espantos







17:22

me veio de aconchego
carinho no cabelo
segredos rente ao peito

no ouvido, falácias
mentiras registradas
carimbadas e autenticadas
quase reais

um cheiro no pescoço
pra dizer te amo
abraço meio de lado
tipo que não quer mais

antes fosse tanto
antes fosse muito
mas é tão pouco
antes fosse quente
antes fosse brasa
mas é tão morno
tão morno...

Equalize

00:28

Coisa estranha essa de gostar de alguém. Estranho, porque não é ruim, nem bom. Quer dizer, é tudo ao mesmo tempo. Aliás, a gente mal sabe se tá mesmo "gostando de alguém" até se pegar pensando nesse alguém enquanto escova os dentes. O pensamento flutua entre o sonho da noite anterior e a lista mental de compras do mercado. Sutilmente anexado ao seu dia a dia.

Talvez as paixões durassem mais antigamente, como dizia vovó, porque as pessoas esperavam menos. E, também, se viam menos, se falavam menos. Não tinha aquela mensagem não respondida no whatsapp, nem aquela troca de curtidas no facebook. Nem a urgência de compartilhar alguma foto no instagram. Que drama inútil esse o nosso.

E o pior é que se esse alguém some por uma semana você pensa que é hora de seguir em frente sem o alguém. Fico pensando nas cartas de amor e o quanto elas demoravam para sair do amante e chegar ao amado. E quando digo que antigamente esperavam menos, não digo menos tempo, mas menos coisas. A gente hoje espera respostas no whatsapp, retorno de ligações não atendidas, curtidas no facebook, recados no messenger, fotos no instagram, convites pra sair, boa noites, bom dias, smiles, saudades, fotografia, textos. A gente quer muito o tempo todo, sabe? Por quê?

Será que dá pra construir um amor sem esperar tanto? Quem permaneceria? E, se permanece, é correspondido? A correspondência, a reciprocidade, a troca, a permanência. Uma combinação difícil. Parece um daqueles jogos de cassinos em que as imagens devem combinar. Quanto mais combinações, mais se ganha. É, acho que é uma boa metáfora.

Abro um livro e tento não pensar em você. Mas só de tentar já penso, então meio que desisto e venho escrever esse texto pra ver se você não vai embora por um tempo. Só um tempinho. Um segundo pra ficar aqui sem ter que lembrar da gente com toda música. E é aí que começa a tocar equalize da pitty...

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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