jessé

18:09

era aniversário da Maria. Maria, que também não é daqui, que também tava longe dos amigos e da família, que também vivia se questionando coisas, não sabia o que fazer em seu aniversário. e parece tão simples, né? só sair de casa. e, no fim das contas, foi o que fizemos. fomos num eventinho de rua, depois numa lanchonete, daí rolou uma batida policial chata pra cacete e todo mundo ficou meio estressado. depois a galera fumou maconha numa rua atras de onde os pms estavam. que ironia, né? aí, enfim, fomos pro largo da ordem e eu fiquei muito bêbada. de repente, jessé. jessé queria vender suas mandalas para pagar sua estadia no hotel e disse que a gente paga o que puder ou quiser. eu dei dois reais. e maria ganhou uma porque, como eu disse, era seu aniversário.

e aí jessé resolveu ficar. maria disse que o nome dele era bíblico e não consegui me lembrar de quem se chamava jessé na história bíblica, mas tive a impressão de que ela estava certa. ofereci cerveja e ele disse que não queria, porque tava com dor de garganta e tomando uns remédios. aí eu disse que também tinha uns remédios na bolsa e mostrei todos. dorflex, dramin, loratadina, neosaldina e ibuprofeno. soou meio estranho na hora, mas, ah vai, são remédios necessários pra viver!

não sei como foi exatamente, mas sei que maria tinha ido ao banheiro e quando ela voltou pra mesa eu chorava. chorava como eu gosto de chorar, intensamente e sem parar. chorava, porque a dor da saudade não se conteve dentro de mim. e o álcool me ajudou a colocá-la pra fora.

me senti bem, porque pra jessé o meu choro parecia a coisa mais natural do mundo. e, me lembrei, realmente é! ele não fez cara de pena ou de que me achava esquisita. só ouviu e me falou sobre a saudade que sentia também.

não peguei o facebook do jessé, ou whatsapp, se é que ele tem, se é que jessé existe mesmo. só sei que aquela atitude de compreensão e tolerância que jessé teve, tão naturalmente, vai ficar guardada no meu coração pra sempre.

02:07

a noite veio e cortou meus cabelos
e me lembrou do futuro
fez com que eu encarasse meu outro eu
num espelho que refletia o passado
os fios pelo chão
(de quem?)
os fios grudados na pele
(são meus?)
os fios de um cabelo
antes cachos cor de cobre
não eram mais meus
agora jaziam grisalhos na pia
na pia de um prédio antigo
com um espelho antigo
com um barulho antigo
que também não eram meus

14:04

se um coração é do tamanho de um punho
qual a força que tem
dois corações batendo juntos?

Bom leitor

21:57

Quando vi você chegar, entrei em um minicolapso interno, meio que fazendo algum cálculo misterioso que pudesse me ajudar a transpor a barreira entre mim e você. Quero dizer, eu era só uma garota fudida que queria fazer um ménage com seu melhor amigo e a namorada dele. Tinha mesmo alguma maneira de impressionar? Por que é tão difícil resistir a essa onda avassaladora que chamamos de desejo? Falei bobagens, besteiras. Inúmeras. Nem lembro direito, na verdade. Ainda sentia efeitos do minicolapso, dos cálculos sem fundamentos e etc. Até que, de repente, você me olhou. Você me olhou de verdade. Eu, ali, crua. Eu, agarrada como uma criança perdida aos meus medos. Eu, alimentando meus próprios desejos como se fosse um bichinho de estimação. Eu, sorrindo e meio tristonha no olhar. Você me olhou. Você me despiu. Não aquela coisa de sempre. Você me olhou como se tocasse no meu braço - eu, uma criança perdida, longe de casa, quase dizendo cadê minha mãe - e meio que disse que estava tudo bem, meio que disse que eu tinha acabado de encontrar um pedaço de lar. Por que você me olhou daquele jeito? Como você consegue fazer isso, aliás? Droga! Acho que se você tivesse notado meu grau de sensibilidade não teria feito isso. Ou melhor. Droga! Mil vezes droga! Você notou! Você fez o "bom leitor", dum poema que escrevi uma vez. Você me abriu, me leu, me traduziu. Mas que merda. Eu sou uma fábula óbvia, né? E deve ser por isso que foi tão rápido. Se bem que, dos que tentaram me ler, poucos conseguiram traduzir. Talvez seja isso. Talvez, a vida vá me trazer, volta e meia, um bom leitor. Pra me lembrar de que pode existir um pedacinho de lar em qualquer canto, em qualquer alma. Tipo na sua.


Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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