conto

Lies

01:13

"Posso chorar?" Ela me perguntou com os olhos cheios de água. Uma pergunta completamente desnecessária, afinal... Podendo ou não ela choraria. O que me restava a fazer era abraçá-la. Li em algum lugar que o abraço é a mais confortável forma de se consolar alguém. Principalmente, em minha situação. Ok. Voltemos uns seis anos atrás para que você entenda. Eu era muito mais inocente do que hoje e vivia os meus 17 anos. O que, para mim, só foi surpreendente, porque conheci Talita. A bibliotecária. Vivia trancado naquele lugar. Era o mais sereno e, incrivelmente, sonoro canto do colégio, do mundo. Eu poderia nem mesmo estar lendo, como na vez em que ela me pegou ouvindo música, escondido atrás das estantes. E por essa ínfima e indiferente razão, ela me obrigou a ficar depois do horário ajudando na arrumação. A minha inocência me cegava. Sentei na última mesa, porque não tinha nada para fazer ali, nenhuma arrumação... Nada fora do lugar. Quando, de repente, as luzes foram embora e eu me assustei. Pude vê-la, vindo em minha direção, semi-nua. Vocês podem estar rindo, mas eu teria dito não se tivesse opção. Contudo, foi tão inevitável aceitá-la quanto eu me apaixonar pelos seus sorrisos dúbios. Todos os dias nos víamos. Ela só tinha 4 anos a mais na idade, mas me tornou o homem que sempre quis ser. Uma vez, aluguei um livro e quando o abri, tinha uma foto dela em que lia-se "Espero-te, no mesmo lugar". Nunca parei pra pensar em como tudo aquilo era bizarro. Eu não me incomodava. Ela só era meio... Alterada. Mandei-lhe flores quando chegou o dia dos namorados. Ela ficou uma semana sem querer me ver. Aliás, ela nem mesmo me olhava, nem me atendia, nada! Eu esquecia tudo depois. Só que percebi que uma coisa estava errada: eu não sabia seu endereço, nem conhecia sua família, nem um amigo seu se quer. Meses se passaram, eu estava loucamente apaixonado. Resolvi segui-la, na hora do almoço. Falhei. Ela foi a um restaurante e acabei me convencendo que era cliente diária. Decidi que esperaria por um sábado de prova, eu saía mais cedo e não nos veríamos. Em Julho, numa tarde de sábado, segui-a e deixei-lhe uma carta, dizendo que iria visita-la, pois agora conhecia onde era o seu lar. Na segunda-feira, ela estava usando um óculos que escondia o olho roxo. Revelou-me a existência de um terceiro. Fiquei tão louco, fora de mim que quase bati nela, também. ! Na verdade, até hoje não sei porque ela nunca me tinha dito nada. Acontece que naquela carta, tinha uma foto minha, como de praxe... Passamos a nos ver menos. Ela sempre desanimada, entristecida. Os sorrisos sumiram e ela nunca ficava depois do horário. Mandei uma carta para o outro dizendo para ele tratá-la bem, sem remetente. Mas é claro que o cara sabia quem era. Um mês depois, fui sequestrado e levado ao meio do nada. Eles me espancaram ate eu perder uns dentes e quebrar as costelas. A minha sorte foi um grupo de aventureiros imitando aquele filme "Into the Wild". Eles me levaram ao hospital e eu fiquei paraplégico. Mudei de colégio, de estado, de tudo. Não queria nenhum contato com aquela mulher. Passaram-se anos e eu tive que me adaptar a minha nova vida: era agora um cadeirante. Tive vantagens e acabei arranjando um emprego mais rápido do que os outros. Uma enfermeira gostou de mim, mas gostou tanto que se mudou pra minha casa. Eu era, de novo, completamente feliz. Uma vez liguei a TV e vi o rosto do marido de Talita, havia sido morto por outros bandidos. Nunca soube dizer como uma bibliotecária virou mulher de ladrão. E no outro dia, recebi um telefonema. Era ela. Eu estremeci da cabeça aos pés e dei o telefone a Ananda, minha esposa, a enfermeira. Não queria vê-la, não queria sentir nem o seu cheiro de longe, nem ver uma foto se quer... Quanto mais ouvir sua voz. Mas, uns dias depois, me vi sentado a mesa do café mais próximo de casa, com Talita em prantos no meu colo. Temia que Ananda aparecesse... Não por mim, mas por Talita. Ela chorava, descontroladamente, pedia perdão como quem não tivesse mais razão de viver. Olhei bem em seus olhos e disse: "Não tenho lugar em minha casa para pessoas indignas. No meu lar... Só entram pessoas boas". Estão me julgando agora? Espera você quase morrer por uma mentira que, quem sabe, você entenda. Mandei embora mesmo... Ela era esperta, daquele estilo Capitu... Conquistaria qualquer idiota rico. Mas eu não. Não de novo.
[Continua...]

prosa

Evolução

03:44

Esqueci como se rimam as palavras. Então as disporei de qualquer maneira nesses espaços até não poder mais. Pois tudo o que tem fôlego, escreva sobre a vida. Ter esquecido realmente me doi. Uma parte de mim se esvai. Doi dar adeus a mais uma. A dor nos cega. Porque sei que há outra chegando, posso sentir. Mas a dor me cega. É tudo poesia. Verdade ou mentira, tanto faz, quem sabe? Algum pseudônimo escreve. E algum anônimo lê. Palavras confusas, interrompidas. Pela forte batida do coração. Eu sou um ser humano. E me aceito assim. Em verdade, em verdade vos digo: estou temendo. Temo que o novo tempo me desrespeite. Que me invada de forma inaceitável. Que me exclua do convívio social ou me inclua forçadamente. Temo que os novos ares sejam preconceituosos. Temo que os preconceituosos ares novos sejam essenciais. Temo tudo isso e muito mais, na esperança de que a alegria do novo me conforte sobre o desconhecido. Temo a floresta, pois não conheço seus rumos, seus ramos, seus bichos... seus deuses. Temo porque existo e não minto, por isso temo. Tenha piedade de mim. Misericórdia, peço eu. Guia-me, gaia. Guia-me, Deus. Que nessas trilhas encontre quem fará em mim abrigo e em troca me protegerá das ciladas da fauna... Da flora. E ao encontrar-te, jamais temerei de novo.

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.