poema

velha história

00:33

lembra

o tempo andava devagar
e a gente se via todo dia
era uma loucura
depois
cabô
foi choro e dor
ai meu deus
tchau pra você
e você veio,
beijou meu pés, meu joelho, meu
mas não deu
e aí aquela história
minha flor te deu alguém
pra amar
foi lá, beijou beijou
ficou até cansar
cansou, fez-me um chamego
tava triste, mais solitário que um paulistano
beijou até suar o pano
mas aí cê nao acredita
foi um tchau duplo
uma coisa assim
"por que cê veio de novo?"
era um tchau, não vai
mas aí foi, com a flor
que tava meio esmagassada
mas reviveu no amor
e eu fiquei aqui
no jardim da vida
feliz, sabe né
o meu amor sou eu.
por enquanto.

00:32

subi lá

pra ver onde cê tava
tava não
da janela, tchau
mandou embora

Texto de final de ano

16:24

Grandes coisas, boas coisas e coisas ruins aconteceram. Nada mais normal, igual. O que faz ser diferente é a maneira como essas coisas nos mudam, nos sensibilizam (ou não), nos irritam, nos matam ou nos dão vida. A cada ano que passa vejo minha independência mais perto, andando devagarzinho e tudo isso tem acontecido por que eu tô lutando com esse objetivo, nunca me esquecendo de agradecer aos que me ensinaram a voar.
Por outro lado, quanto mais o tempo passa, mais eu me vejo dependente de Deus. Toda essa coisa com a minha espiritualidade, que incomoda muitos e agrada outros – tanto faz pra mim – é o que realmente me move. E me move a ser independente do favor humano, do dinheiro e de tudo o que está aqui. Tive a oportunidade de fazer um curso chamado “escola de líderes”, oferecido na igreja onde congrego. Aprendi a me liderar e a ser humilde. Uma das recompensas de tudo o que vivi nesse curso é ouvir: “Deus está te dando um caráter massa, aproveita isso”. Estou me tornando uma pessoa boa e sábia, o que não quer dizer alguém que nunca erra ou que não fala asneiras.
Convivi mais com um grupo de amigos muito especiais pra mim. Aprendo demais com eles, sobre tudo. Principalmente que amor é amor, não importa quem você é ou como você vive. A e B, a gente se mistura, ouve um samba, ri e até joga imagem e ação. Haha. “Você fica chateada quando fazemos isso?”, me perguntou. Talvez, sim, não. De que isso importa se eu sinto amor? Se quiser ouvir meus juízos de valor eu falo, mas cês já sabem quais são.
Alguns laços de amizade foram rompidos de verdade, sem ódio, foram corroídos pelo tempo. Tristeza, mas uma saudade alegre e o “feliz aniversário” de praxe. Outros laços ficaram frágeis, distantes, perderam o significado. Ainda é tempo. 2011 pode mudar isso. Fiz muitos amigos, transbordei amor a todos eles – e aos não amigos também. Aqueles que eu nem imaginava amar tanto, acabei me rendendo. Deus está me ensinando a amar, inconsequentemente e sem restrições.
Concluí mais um ano do curso de teatro. É uma das minhas paixões. Mas quero experimentar outra coisa: a dança. Contemporânea, ainda. E o ano que está vindo vai me dizer onde isso vai dar. Estou aberta ao experimentalismo. Tentar e por que não?
2010 também me deu muitos sonhos, sonhos maiores que os meus, que vêm de Deus. Provavelmente, não se realizarão em 2011, mas se realizarão. Sei disso.
Passei a conhecer melhor as pessoas com quem convivo. Aprendi a me abrir mais, da maneira certa, a pedir perdão (esse ensinamento foi o mais difícil, mas é lindo ver como aprendi). Aprendi, ou melhor, Deus está me ensinando a esquecer as coisas, o passado, os traumas, os amores. Cura. Dói muito, mas nada compensa o resultado.
Não escrevi muito em 2010 (algo que irei mudar ano que vem!). Mas é por que esse ano foi diferente, singular. MUITAS mudanças, mudança de fase, de rotina, de amigos, de vida, de ideologia, de comportamento. De t-u-d-o. Minha cabeça se transformou numa máquina de ideias e o meu corpo num instrumento. Penso e me preparo para executar, depois de ter planejado. É assim. E que venham as ideias de 2011.

Feliz ano novo!

prosa

O amor. Ah, o amor.

22:36

Como uma arpa, eu queria ser tocada. Em nada menos clichê, eu poderia ter pensado agora. Afinal, quero mesmo é amor. E o amor é a mais sublime multisignificativa palavra que existe. Numa compilação de milésimos, respirei e você soprou. Conectei-me, como a uma estação de rádio. E, incrível, como é possível encontrar a sintonia perfeita. Não falo de paixão não! Digo, não só de paixão. Porque se eu respirar o sopro do meu amado, da minha amada, do meu filho, do meu companheiro, bem, estou então amando. E eu me conecto. Posso até ligar minhas sinapses na sua. Troco tudo com você. Porque amor é sacrifício. Mas - ei - eu não disse "por você". Dá quase no mesmo. ("mas para casar, você não pode ser racional não" ouvi hoje, depois de uns goles, a fala de quem é loucamente apaixonado pela sua esposa). É isso! É coisa de sentimento. Não faz sentido dicionarizar tudo, o casamento, a cópula, os sentidos. Que vêm lá do fundo, como uma onda... Sonora. E, se me for permitido pensar agora, a conexão segura só se faz quando há a frequência adequada. Que procura dolorosa e inegavelmente divertida. Frequências. Mas quando for para amplificar, eu amplifico e caso. Por que não? Assim, tem que ser sem pensar mesmo. Se for analisar, descasa! E aí o fim que era pra ter acontecido, dá lugar a rotina. 100, 101, 101.2. Passo o olho no livro: Inveja. Não é cobiça. É querer tirar o que o outro tem. E se isso tem a ver com a arpa, com o sentimento ou com a frequencia já é outro departamento. Mas que é irracional, é. Como tudo nessa vida. Vai entender o que é isso. Mas nada mal, nada mal... Parei numa frequencia e desliguei o rádio depois disso. Sei lá qual foi a música que me traumou. Deixa assim. Colocar as moedas no porco, comprar um rádio novo e, então, quem sabe. Mas pode ser que. Numa dessas, o Seu tal ligue o rádio na padaria ou a moça do churrasquinho me sintonize ou a estação do cinema, do mercado, ah vai saber. Quem sabe! Se eu começo a tocar no rádio de alguém, já viu né.

prosa

J'aime

21:19

Me pegou na escola, dizendo ser meu professor. Queria corrigir todos os meus erros gramaticais e disse "Pegou-me". Descobriu que tinha 16. Pirou, mas da melhor forma possível. Sábado, buzinou aqui na varanda e me olhou como se me puxasse pelos cabelos. Tocava uma música serena, delirante. Ela entrava devagar, bem sem pressa e caminhava lentamente pela roupa, pelo corpo, pelo coração. E dizia, nem me lembro em qual idioma, que todo desejo vem da carne. Pude ler seus pensamentos por alguns segundos e vi um homem puxando pelos cabelos uma pequena e esperta como eu, olhando-a como se fosse amar. Que engraçado. "Essa música é uma delícia, sabia?". Quem disse isso? Tomamos inúmeros goles de qualquer destilado. Comecei a ver espelhos em toda parte. Depois de tanto beber, comecei a ficar sóbria. "Eu não amo você". Fui eu quem disse essa. Algumas risadas depois, estávamos no elevador que escalava cada andar com passos de formiga. Lento como uma música gostosa. Seus pensamentos me mostravam em outra posição com outras intenções. "Vou tomar banho". Os olhos piscaram e ele estava em minha frente dizendo "Eu sou a música".

01:17

Enquanto eu chego, você sai
Se eu subo, você desce
Tudo ao contrário e ninguém reparou.





Mas tem dia...

poema

Segredo

23:25

Já esperava
Que um dia qualquer
Viesse no meu ouvido
Dizer que por um doce
Livrava-me de sua ira
Que fosse um beijo
Tanto faria

E foi ontem mesmo
Que veio dizer
No pé, na orelha (no pé da orelha)
Que me amava
E quase sem poder explicar
Disse o resto com o olhar
Deixando pra mim o nada
E falou: sabe o que é? não sei
Sabe sim!
Deixeu saber o que passa
Por trás desses seus cachos
Louros, dourados
Quero me encontrar
Com essa felicidade
De conhecer e amar
Uma parte de mim que eu desconheço.

título

21:34

deixa eu dizer
o que eu acho legal
na poesia
digo,
deixa eu dizer
o que eu amo
o que eu sou apaixonada
o que me domina de uma forma
avassaladora
e vou fazer isso em forma de
verso
- que poema clichê será

eu fico louca
de amores
quando alguém
lê o que eu escrevi
e sente
não diz
não precisa me devolver

mas eu amo também
quando alguém
lê minha poesia
e me mostra um outro
lado, outro mundo
me apaixono quando isso acontece

porque, né, convenhamos
tem coisas que são ditas
que só cabem ao entendimento
do próprio emissor
ao seu humilde intelecto

mas não liga pro que eu amo não, eu tô mais no lado oposto do que no do de cá. e acho uma chatice essa divisão histórica da literatura. me deixa.
- eu não vou revisar, não vou reescrever, eu vou deixar assim, meu vômito pra vocês.

conto

Amie II

01:07

Acordei com aquela sensação de que estava caindo. Ao meu lado, estava uma mulher linda deitada e dormindo como um anjo. Só decidi levantar porque alguém insistia em não entender que eu estava ocupado. Abri a porta e, à minha frente, surgiu a figura de um alguém que eu pensei que não fosse não ver mais. Os lábios rubros tinham um tom velho, gastado. A maquiagem estava aguada. Não tinha chovido. Ela descalça e eu nú. Não quis recebê-la.

Meu sangue fervia. Tive vontade de lhe dizer que estava melhor. Que voltara a escrever, escrever frases mais longas. Com menos drama, com menos dor. Dizer que tinha pintado algumas figuras na parede e não eram vermelhas. Tive vontade, aliás, de gritar. Berrar que estava muito bem sem ela, sem seu inferno astral. Que viajei pra muitos lugares e quebrei muitos corações. E que estava bem.

Mas sua aparição me fez pressentir.
***

Lendo o jornal, no mesmo lugar de sempre, pude sentir que estava em sua mira. Olhei-a. Ela me disse um turbilhão de coisas, palavras sem sentido, sílabas soltas. Continuava lá, estática, amassando seus lábios cansados. V a g a r o a s a m e n t e.

Levantei-me, parecia sóbrio, graças a Deus. Havia acabado de chegar a meu apartamento, ouvi seus passos. Ela entrou. Em tudo.

***
Não era preciso dizer. Mas foi impossível resistir. A sua pele me atraiu como um ímã. Irrecusável.

De novo, havia vermelho nas paredes e eu estava lá. Imerso em um sonho, dentro de outro sonho. Ela me roubou as palavras, não conversava mais. Separava tudo para ela.
***
Um cinzeiro de vidro estilhaçado. Ela chorava continuamente. Negou-se a responder quando perguntei o que havia acontecido. Todas as noites isso se repetia.

Duas vezes perdeu as chaves. Acabou com meus maços. Manchou os meus livros. Perdeu as canetas, esqueceu a cozinha e não fazia nada de diferente.

Ela estava morta.
***
Escrevi e na primeira tentativa parei.

“O que me importa seu amor agora?
Quero minhas frases de volta. Quero ter mais o que dizer.
Cansei”

Adeus.

02:30

eu queria morar em outro mundo
fugir disso tudo
mas é impossível
sempre vai ter o espinho na carne
sempre vai ter uma lagrima caindo
uma noite mal dormida
um coração apertado


quer dizer...

nota

a psychopath can kill you

02:12

- Lady, lady. Don't you know you're on the wrong way? After the curve, there's only chaos. - He said as a mother singing a lullaby.

- Don't stop smiling.

She thought: I am the psychopath. I'm killing myself with that.

prosa

deixa, deixa

23:56

e a casaca me contou que na rua naquela rua que a gente ia quando pequenos tá tendo agora gente no chão rolando com dor sem dente criança catarrenta puxando com a mão suja a barra da saia da mãe que faz um escambo com um cara chique la da grande vitoria só no nome porque não é vitoria nenhuma uma casaca que me conta tanta tristeza e eu fui la no centro onde tudo acontece onde gato morre igual gente e fui pescar acabei pescando um homem que nem quis mais vi o sol nascer e morrer um cara foi preso porque era preto, gay, nordestino e pobre e depois eu que sou multi multicultural um velho sentou do meu lado lá perto da estação e disse assim com uma casaca na mão que o mundo tava acabando que Deus tava voltando e eu que já nem sei mais quem eu sou fiquei sem saber o por que do como e do onde que você não veio aqui me ver naquela tarde fria do domingo aqui no santa marta, cê tá me enrolando

mudança de endereço

Mudanças

02:50

Homenageando o período de mudanças da minha vida profissional e, claro, psicológica - que é o que interessa pra esse blog - eu mudei o endereço. Cansei da falsa insensatez da velha fase, a sinceridade é somente e tudo. Uma pena é que esse sistema LOUCO do blogger excluiu todos os comentários. Agradeço todos os poucos comentários, significaram muito pra mim em alguns momentos. Enfim... Só desejo boas vindas aos novos comentários, a essa nova fase e ao novo endereço. Beijo para quem se interessou o suficiente para ler até aqui.
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ps.: como o blogger é lindo ♥, acabei de ver que os comentários foram mantidos!

prosa

23:59

sabe? aqueles dias que você não tá nem aí pro que tão dizendo, não liga se tão se afastando de você, que você se sente mais bonita, mais segura nas alianças que você fez até hoje, se sente inabalável, mas a modéstia continua sendo seu cálice, e o pé direito é que comanda. você respira, pode tá frio ou chovendo, você sorri. e é tudo maravilhoso. porque tá tudo em paz.

11:25

vagarosa, a janela abre
era ela acordando
assustou-se
havia luz
havia Sol
havia Ele
escreveu em sua pele
paz
.

conto

Amie

23:47

Nossos olhos fitavam a arma de um crime inafiançável. As lágrimas caíam de seus olhos num curso muito natural e não pretendiam parar. Eu cuspi e tinha o gosto do seu suor. Seu pranto era constante e dizia, inconsolável: “Eu não faço esse tipo de coisa”. Restava-me apenas concordar e repetir, repetir até ficar diferente. A minha inconsciência pesava sobre a minha consciência dizendo “Evoé Baco! Evoé Vênus!”, mas eu sabia que era o momento errado para alguém novo.
Seu rosto parecia transfigurar-se, enlouquecendo. Uma música insistia em tocar sem parar e cantava “Is that alright?”. Pronunciei-me, mas foi um equívoco. Se estivesse carregada, ela teria me matado. “Amor um mal”. Provavelmente, queria me calar durante o tempo que durasse a canção.
Lancei-lhe um olhar frio, gelado. Mas ela me atirou ao chão com levantar de suas pálpebras. Estava nua, sentada na beira da cama. No vão da porta, eu me apoiei, tragando mil sensações e, às vezes, um cigarro no canto da boca.

Ela se vestiu e finalmente.
***

Nunca tinha percebido quão cinza era o meu quarto, a minha vida. O chão me puxava. Sentei, deitei, chorei. Queria sentir seus passos, quando fosse voltar. Dormi por uns segundos e sonhei que fazíamos sexo, ao som da tempestade, num dia gelado. Você dizia que já estivera aqui tantas vezes e tirava o cinza das paredes com suas marcas de batom. Acordo, solitário. Lá estava eu a desfiar a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista.

Abri uma garrafa de vinho e deixei a canção me invadir.
***

Amanheceu e o silêncio era como uma xícara vazia. Escrevi duzentas cartas. Em algumas eu me desculpei, em outras a xinguei. Mas em todas pedi que voltasse. Ora dizia ser um mentiroso que merecia morrer, ora declarava-lhe um amor incondicional. Ouso dizer que não menti. Nas cartas. Precisava que ela soubesse e se lembrasse de quem eu era. Um romântico assumido, louco e desesperado. Não tinha outra saída, mas enviei apenas uma.

“Eu amo sua depressão e amo sua dupla personalidade. Eu amo quase tudo o que você tem a oferecer”.
***

Num dezembro cinza e cansado, as pessoas me desejavam feliz natal. Completamente inapropriado. Sentia falta dela, das mãos que sabiam exatamente onde tocar numa manhã de natal. Pude sentir seu cheiro, doce perfume. Era um telegrama.

“Querido,
Eu me lembro bem da primeira vez que vi seus olhos melancólicos. Lembro bem, porque a minha mente parou de funcionar quando te vi. Queria que estivesse aqui, porque conheci coisas maravilhosas. Estou distante, muito distante. Só quero te pedir que seja feliz. Eu sinto sua tristeza me chamando. Mas eu não posso voltar.
Estou casada. Feliz natal.
Amie”

Chorei, bebi e fumei. Meu carro estava me esperando. Dirigi a noite toda. “Que merda essa mulher quer de mim?”. Foda-se.
***


Abria e fechava o meu isqueiro na lentidão de quem estava embriagado e a observava do outro lado da rua. Entre uma e outra tragada do meu cigarro, eles se tocavam. A minha xícara estava vazia. Mas ela estava feliz, sorria mesmo enquanto falava.

Fui o seu maior erro.

Um garoto lhe entregou um guardanapo em que estava escrito “Um brinde, querida”. Ela limpou os rubros lábios e mandou de volta.
Eu posso esperar.

poema

23:13

Caindo, seguindo. Não tem volta.
No chão, encontro-te.
Amortecida, choro.
Meus pés encontram os teus.
És meu fim.

prosa

00:23

O arrepio demonstrou que eu pressentia sua chegada e o sorriso que aceitava sua permanência. Coberto de uma culpa inigualável, cobriu-me de sentimento. Encharcou-me com palavras vãs, encheu-me com o vazio. Não temi a falta de espaço. A recíproca era verdadeira e, por isso, toquei-lhe sutilmente. Era tudo o que queria. Numa questão de segundos, pude relembrar a primeira vez. Ele me escolheu primeiro. Eu era a preferida. Egocentricamente, eu ria quando a via. Pensando ser amada por completo. Porém, logo depois, eu me entristecia. Uma mulher tão linda não merece um homem tão medíocre. Ninguém merece e nem sei se eu posso chamá-lo de homem - no sentido moral da palavra. Estávamos proibidos de demonstrar qualquer coisa que sugerisse uma relação a mais do que a profissional. Mas eu denunciei pelo olhar. Por mais que eu soubesse que era amada, queria ser a única e verdadeira. De fato e de direito. Contudo, assim percebi que medíocre era eu, naquela situação. Não lhe toquei mais. A suavidade sublimou. Fiz-me forte e desapareci. Não liguei mais. E deixei-lhe um bilhete amarelo escrito “Prefiro assim”.

Escrito em 23.04.2010

prosa

Desejos

22:34

Quero ter um filho. Quero fazer aniversário duas vezes ao ano. Quero viajar até Pernambuco com uma mochila enorme nas costas. Quero acordar ao lado de um amor numa cama bem macia em Fernando de Noronha. Quero sair de casa. Quero fugir de casa pra te ver. Na verdade, não quero nada.
Sonhos aleatórios ocupam a minha mente de um futuro que não me pertence e que nem perto está. Deixam o ar rarefeito, difícil de respirar. Sei que tem nome pra isso, tem nome pra tudo nessa vida. Ansiedade. Se tudo se resume no desejo de que as coisas simplesmente aconteçam é porque eu realmente fico apavorada por não ter controle sobre tudo. Nem sobre mim.
A minha mente é um infinito rolo de fita. E desfia e desfia e desfia... Não importa em que época estarei. Vou sempre tentar prever ou, menos que isso, imaginar o que estar por vir. Acho que vivo mais e muito mais feliz nas coisas que imagino.
Ele disse que me amava e que queria ficar comigo pra sempre. Tiramos fotos pro orkut, pro twitter, pro facebook, pra minha parede. Trocamos alianças de amizade, de namoro, de noivado, de casamento, tatuagens. Vivemos feliz.
Aí eu acordo num estalo ouvindo Damien Rice numa noite solitária. Eu me nego a chorar, porque eu me sinto muito bem. Não sou bonita quanto ela. Mas sou amada. Constantemente amada.
E desfia e desfia! Bang. O anseio pelos momentos interessantes da minha vida me sugere vontades de coisas que não devo fazer. Suspiro e imagino. Enxergo de uma maneira ímpar.
Suas mãos passeiam sobre mim, se perdem, me perco, nos perdemos. Bluft. Faixa 7 do segundo CD do Damien. Ainda é noite, ainda é solitária. Ainda sou eu desfiando...
Tentei dominar de novo os meus pensamentos. Concentrei-me, troquei de música, mudei o público alvo. Na verdade, lembro bem daquela vez que o vi após a peça de teatro. Agora já era, se tentar prever não me bastava, fui então retroceder e rir e chorar o leite seco no assoalho.
E desfia...

amor

03:32

"Alguém
Que voe de avião
Me aceite como sou
Ame os meus pormenores
Dê-me girassóis de amor
Abraços dê-me ao léu
Mas juras de papel
Oh, não

Faz crescer em mim
Sentimento há muito apagado
Faz do bucolismo causa à toa
Da rotina coisa boa"

Meu amigo Caio Fabricius quem escreveu :)

conto

Olhos Fechados

16:05

Eu estou com sono. Não consigo entender, o tempo todo ele me acomete. Sou seu alvo. Não me preocupe nem em saber se estou bem... Quando me indagam, a resposta é a mesma: "Estou com sono".
Sou atingido por um meteoro e! Nunca me senti tão viva. Estou brilhando no escuro. O meu Sol é a Lua. Não há espelhos em toda a cidade. Vejo minha luz nas gotas da chuva. Ouço uma música. Sou a musa deles todos. Eu posso dançar.
O despertador me chama loucamente avisando que é hora de acordar. E o Sol insiste em me fazer abrir os olhos. Sono, antes de tudo. Antes de rir, do café, do banho, de mim. Sou dominado. Não faço mais nada além de esperar cada segundo passar até poder dormir.
No meu quarto tem uma janela enorme. Posso ver toda a avenida. Ontem, às 3h, chovia e me vi dançando, Mas não era eu. Era ela, como uma ninfa. Sou sonâmbulo.
"Alô?". Era o analista cobrando a conta. Não sei por quê ainda compareço à porra das sessões. Sempre a mesma coisa. A rotina me dá sono.
- O que fez entre 2h e 5h de ontem?
- Sou inocente, delegado.
- O que fez?
- Eu dormi.
Nada demais. Ele me trata, na maior parte do tempo, como um criminoso que não quer confessar. Sou importante aqui. Ele me pesquisa.
Hoje eu dormi com a sensação de que seria ótimo. Acordei e, no teto, estava escrito "Brilhe ou morra!" em néon. Chamei a polícia. Nada aconteceu. Disseram-me que era louco. Dormi cedo.
Eu sou a louca e assumo essa responsabilidade. Não desejo mais viver. Cansei da Lua e de suas fases. Vivo sem dormir. Quero agora dormir para sempre.
Ontem eu me vi pulando da janela. Mas não era eu, era ela, na minha enorme janela. Hoje eu morri.

diálogo

say it loud

01:15

- Desculpe-me, querido. Não queria te machucar.
- Sei que por dentro você tá rindo e pensando 'se ferrou, babaca'
- Eu??
- Você mesmo sua vagabunda.
- Por que tão agressivo? Nunca foi assim... Não era pra ser.
- Agressivo seria se eu te enchesse de soco.
(Ela lhe lança um olhar de pena e toca em seu ombro)
- Deixe-me ir. Acabou.
- O quê? - Ele, bruscamente, tira a mão dela de si e transforma toda sua expressão. Ele está bravo. - Se recompõe - Permita-me ser franco... Aliás, você não tem que permitir merda nenhuma, porque quem tá ferrado sou eu. E eu posso falar o que quiser, culpo minha loucura.
(Ela se afasta, temendo)
- Tá com medo, querida? Só quero te dizer algumas coisas. Quer dizer... Quero jogar na sua cara mesmo... Lembra quando você sofreu aquele acidente? NENHUM parente seu foi te buscar, eles te desprezam... Fui eu quem te ajudei.
- Claro que lembro e sou grata por isso. Sempre serei.
- Ah, meu amor. Você não está sendo. Lembra quando você se prostituía e eu te levei em casa, deixei você descansar... E morar comigo?
- Foi a melhor coisa que já me aconteceu, mas...
- Não, não... Lembra quando você deu uma recaída e eu te encontrei desmaiada de overdose na porta de casa? Quem te ajudou mesmo?
- Foi você.
(Ele encosta ela contra parede, pegando firme em seus pulsos)
- É óbvio que fui eu! Quem mais se importaria com você? Quem mais te limparia e te faria chegar onde chegou? Eu! Fui eu quem te amou, sou quem te ama. As pessoas não te amam!
- Isso mudou, tudo mudou. Agora eu sou amável.
- Eu te amei quando você não era.
- Obrigada.. obrigada.
- Obrigada? Quer saber... Dane-se. Você e seu playboyzinho infeliz. Morram juntos. Morram... juntos.
(Ele a beija e, sem seguida, dá-lhe um tapa no rosto)
(Ela fica sem acreditar)
- Desculpe-me, querida. Eu não queria te machucar.

conto

Lies

01:13

"Posso chorar?" Ela me perguntou com os olhos cheios de água. Uma pergunta completamente desnecessária, afinal... Podendo ou não ela choraria. O que me restava a fazer era abraçá-la. Li em algum lugar que o abraço é a mais confortável forma de se consolar alguém. Principalmente, em minha situação. Ok. Voltemos uns seis anos atrás para que você entenda. Eu era muito mais inocente do que hoje e vivia os meus 17 anos. O que, para mim, só foi surpreendente, porque conheci Talita. A bibliotecária. Vivia trancado naquele lugar. Era o mais sereno e, incrivelmente, sonoro canto do colégio, do mundo. Eu poderia nem mesmo estar lendo, como na vez em que ela me pegou ouvindo música, escondido atrás das estantes. E por essa ínfima e indiferente razão, ela me obrigou a ficar depois do horário ajudando na arrumação. A minha inocência me cegava. Sentei na última mesa, porque não tinha nada para fazer ali, nenhuma arrumação... Nada fora do lugar. Quando, de repente, as luzes foram embora e eu me assustei. Pude vê-la, vindo em minha direção, semi-nua. Vocês podem estar rindo, mas eu teria dito não se tivesse opção. Contudo, foi tão inevitável aceitá-la quanto eu me apaixonar pelos seus sorrisos dúbios. Todos os dias nos víamos. Ela só tinha 4 anos a mais na idade, mas me tornou o homem que sempre quis ser. Uma vez, aluguei um livro e quando o abri, tinha uma foto dela em que lia-se "Espero-te, no mesmo lugar". Nunca parei pra pensar em como tudo aquilo era bizarro. Eu não me incomodava. Ela só era meio... Alterada. Mandei-lhe flores quando chegou o dia dos namorados. Ela ficou uma semana sem querer me ver. Aliás, ela nem mesmo me olhava, nem me atendia, nada! Eu esquecia tudo depois. Só que percebi que uma coisa estava errada: eu não sabia seu endereço, nem conhecia sua família, nem um amigo seu se quer. Meses se passaram, eu estava loucamente apaixonado. Resolvi segui-la, na hora do almoço. Falhei. Ela foi a um restaurante e acabei me convencendo que era cliente diária. Decidi que esperaria por um sábado de prova, eu saía mais cedo e não nos veríamos. Em Julho, numa tarde de sábado, segui-a e deixei-lhe uma carta, dizendo que iria visita-la, pois agora conhecia onde era o seu lar. Na segunda-feira, ela estava usando um óculos que escondia o olho roxo. Revelou-me a existência de um terceiro. Fiquei tão louco, fora de mim que quase bati nela, também. ! Na verdade, até hoje não sei porque ela nunca me tinha dito nada. Acontece que naquela carta, tinha uma foto minha, como de praxe... Passamos a nos ver menos. Ela sempre desanimada, entristecida. Os sorrisos sumiram e ela nunca ficava depois do horário. Mandei uma carta para o outro dizendo para ele tratá-la bem, sem remetente. Mas é claro que o cara sabia quem era. Um mês depois, fui sequestrado e levado ao meio do nada. Eles me espancaram ate eu perder uns dentes e quebrar as costelas. A minha sorte foi um grupo de aventureiros imitando aquele filme "Into the Wild". Eles me levaram ao hospital e eu fiquei paraplégico. Mudei de colégio, de estado, de tudo. Não queria nenhum contato com aquela mulher. Passaram-se anos e eu tive que me adaptar a minha nova vida: era agora um cadeirante. Tive vantagens e acabei arranjando um emprego mais rápido do que os outros. Uma enfermeira gostou de mim, mas gostou tanto que se mudou pra minha casa. Eu era, de novo, completamente feliz. Uma vez liguei a TV e vi o rosto do marido de Talita, havia sido morto por outros bandidos. Nunca soube dizer como uma bibliotecária virou mulher de ladrão. E no outro dia, recebi um telefonema. Era ela. Eu estremeci da cabeça aos pés e dei o telefone a Ananda, minha esposa, a enfermeira. Não queria vê-la, não queria sentir nem o seu cheiro de longe, nem ver uma foto se quer... Quanto mais ouvir sua voz. Mas, uns dias depois, me vi sentado a mesa do café mais próximo de casa, com Talita em prantos no meu colo. Temia que Ananda aparecesse... Não por mim, mas por Talita. Ela chorava, descontroladamente, pedia perdão como quem não tivesse mais razão de viver. Olhei bem em seus olhos e disse: "Não tenho lugar em minha casa para pessoas indignas. No meu lar... Só entram pessoas boas". Estão me julgando agora? Espera você quase morrer por uma mentira que, quem sabe, você entenda. Mandei embora mesmo... Ela era esperta, daquele estilo Capitu... Conquistaria qualquer idiota rico. Mas eu não. Não de novo.
[Continua...]

prosa

Evolução

03:44

Esqueci como se rimam as palavras. Então as disporei de qualquer maneira nesses espaços até não poder mais. Pois tudo o que tem fôlego, escreva sobre a vida. Ter esquecido realmente me doi. Uma parte de mim se esvai. Doi dar adeus a mais uma. A dor nos cega. Porque sei que há outra chegando, posso sentir. Mas a dor me cega. É tudo poesia. Verdade ou mentira, tanto faz, quem sabe? Algum pseudônimo escreve. E algum anônimo lê. Palavras confusas, interrompidas. Pela forte batida do coração. Eu sou um ser humano. E me aceito assim. Em verdade, em verdade vos digo: estou temendo. Temo que o novo tempo me desrespeite. Que me invada de forma inaceitável. Que me exclua do convívio social ou me inclua forçadamente. Temo que os novos ares sejam preconceituosos. Temo que os preconceituosos ares novos sejam essenciais. Temo tudo isso e muito mais, na esperança de que a alegria do novo me conforte sobre o desconhecido. Temo a floresta, pois não conheço seus rumos, seus ramos, seus bichos... seus deuses. Temo porque existo e não minto, por isso temo. Tenha piedade de mim. Misericórdia, peço eu. Guia-me, gaia. Guia-me, Deus. Que nessas trilhas encontre quem fará em mim abrigo e em troca me protegerá das ciladas da fauna... Da flora. E ao encontrar-te, jamais temerei de novo.

Deus

18:56

Olhe para o céu, pode ver? Bem ali, escondido entre as estrelas e as negras nuvens... Aquele que não faz questão de aparecer. Que te vê, sorri ou chora. Que te vê rindo e zombando de quem ele é. Que te vê reclamando do vazio, mesmo fazendo tudo o que quer. Que te vê e estende a mão. Não é correspondido. Quando você lê uma frase na rua e sorri, é ele te desenhando. Quando chora sem razão, vai a varanda e de repente percebe que é feliz. É ele te conduzindo. Quando se assusta por quase ser atropelado. Bem... É ele te protegendo. Será que agora pode ver? E como é óbvio! Foi o que você pensou, eu li seu olhar. Seus olhos brilhando com a certeza. Uma certeza incrível que preencheu seu coração de paz. Posso sentir! Ele te assiste, te observa, te admira! E está à destra de Deus...

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.